Pombo ou falcão?

28.02.2018

 

O mercado financeiro captou o tom do novo presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em depoimento ontem na Câmara dos Estados Unidos. A fala suave ("dovish") de outrora em relação ao ciclo de alta nos juros foi substituída por um viés ligeiramente mais agressivo ("hawkish"). E, nessa briga entre pombos e falcões, Jay deu a entender que, se necessário, pode promover aumento adicional na taxa norte-americana.

 

Os investidores não entrarem em pânico, mas também não adoraram o que Powell disse na sua estreia pública como presidente do Fed. Por mais que tenha ecoado o tom que havia sido deixado na ata da reunião de janeiro, ainda comandada por Janet Yellen, Powell evitou dar pistas sobre o ritmo de alta dos juros nos EUA neste ano e apenas indiciou que o primeiro aperto em 2018 será em março, como previsto.

 

Daí em diante, será preciso avaliar os números sobre a economia dos EUA para saber quão gradual será esse processo. Afinal, mesmo com o tom ainda "gradualista" de Powell, indicadores econômicos acima do esperado tendem a inflar a expectativa de quatro altas nos juros norte-americanos em 2018.

 

Por ora, os investidores trabalham com apenas três elevações - em março, junho e dezembro - mas a aposta de um novo aumento antes do fim do ano pode ganhar espaço, conforme os dados de atividade, emprego e inflação surpreendam. Nesse sentido, saem hoje nada menos que os números do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA em 2017.

 

A expectativa é de uma ligeira revisão para baixo na segunda leitura, com o PIB crescendo 2,5% no quarto trimestre do ano passado, em relação à estimativa original de alta de 2,6%. O resultado efetivo será conhecido às 10h30. Depois, saem a atividade industrial em Chicago neste mês (11h45), as vendas pendentes de imóveis residenciais em janeiro (12h) e os estoques semanais de petróleo bruto e derivados no país (12h30).

 

À espera desses números os mercados internacionais seguem no vermelho nesta manhã. A Ásia teve uma sessão de perdas, contaminada pelo desempenho negativo em Wall Street ontem e também pelo sinal vindo dos índices futuros das bolsas de Nova York hoje, o que também prejudica a abertura do pregão europeu. Dados mais fracos que o esperado no Japão e na China potencializaram a queda na região.

 

A produção industrial japonesa caiu mais que o esperado em janeiro, em -6,6% em relação a dezembro, no maior recuo mensal desde março de 2011, ao passo que as vendas no varejo japonês recuaram 1,8% no período, ante previsão de -0,6%. Na China, o índice dos gerentes de compras (PMI) da indústria caiu a 50,3 em fevereiro, de 51,3 em janeiro, na maior queda em cinco meses, em meio à pausa pelo Ano Novo Lunar.

 

Em reação, os metais básicos são negociados em baixa, assim como o petróleo, após o alerta sobre a produção ininterrupta de xisto nos EUA. As moedas emergentes e correlacionadas às commodities também perdem terreno em relação ao dólar, que mede forças em relação aos rivais de países desenvolvidos, como o iene e o euro. Nos bônus, o rendimento do título de 10 anos dos EUA (T-note) segue em alta.

 

É válido lembrar que, no início de fevereiro, os negócios com bônus ganharam maior atratividade dos investidores em meio à especulação de que o Fed poderia subir os juros nos EUA em um ritmo mais rápido do que esperado antes. Os dados robustos sobre o mercado de trabalho nos EUA (payroll) em janeiro geraram uma forte onda vendedora (selloff) nas ações globais, em meio a uma forte aversão ao risco.

 

Juros mais altos na maior economia do mundo tendem a retirar recursos aplicados em países mais arriscados, como o Brasil. Aliás, internamente, os investidores aguardam os números do PIB brasileiro, amanhã, para saber como anda a atividade doméstica e se há espaço para o Banco Central promover mais um corte na taxa básica de juros em março. As chances de queda adicional da Selic estão dividas em 50%, com o restante indicando manutenção.

 

Na agenda econômica do dia, o destaque local fica com a taxa de desemprego no país (9h), que deve ter seguido elevada no início deste ano, alcançando a marca de 12% e somando cerca de 12,5 milhões de pessoas desocupadas. Por isso, por mais que o governo tente melhorar a popularidade, a campanha não é suficiente, pois, para uma parte expressiva na economia real, a percepção é de que o pior ainda não passou.

 

Ainda no calendário doméstico, saem as sondagens dos setores industrial e de serviços neste mês, além dos dados parciais de fevereiro sobre a entrada e a saída de dólares no país (12h30) e da nota de política fiscal no mês passado (14h30). Na safra de balanços, destaque para a Gerdau, que deve ter sido beneficiada pelo aumento no preço do aço.

 

 

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