A grande família

17.10.2017

 

O novo mal-estar entre os presidentes Michel Temer (República) e Rodrigo Maia (Câmara), na esteira da divulgação dos vídeos da delação premiada do ex-doleiro Lúcio Funaro, trouxe nervosismo aos mercados domésticos ontem e o clima deve esquentar hoje, com o destino do senador Aécio Neves podendo ser definido no Senado. Lá fora, a tensão entre Coreia do Norte e o governo Trump volta a crescer, em meio às apostas sobre quem será o próximo comandante do Banco Central dos Estados Unidos.   

 

Especulações de que o sucessor de Janet Yellen na presidência do Federal Reserve será alguém conservador ("hawkish"), que dará continuidade ao ciclo de alta da taxa de juros norte-americana, interrompem o recente rali entre os ativos de risco no exterior. Ao mesmo tempo, o alerta do líder norte-coreano Kim Jong-Un, de que uma guerra nuclear pode acontecer "a qualquer momento" abalou os negócios na Ásia.

 

Trata-se do maior risco geopolítico atualmente, que se soma aos impasses envolvendo a região espanhola da Catalunha e a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit). As principais bolsas europeias abriram sem um rumo definido, ensaiando alta, mas sendo contaminadas pelo sinal negativo vindo também de Wall Street. O euro e a libra esterlina recuam, com o dólar acompanhando o vigor dos títulos norte-americanos (Treasuries).

 

O rendimento das Treasuries subiu, após relatos de que o professor da Universidade de Stanford John Taylor teria impressionado o presidente norte-americano Donald Trump em uma entrevista na semana passada e seria um forte candidato ao cargo no Fed. Taylor é conhecido por defender taxas de juros mais altas nos EUA, o que aumenta a demanda pelos bônus. Nas commodities, o cobre e o petróleo ainda tentam se sustentar.  

 

A agenda econômica desta terça-feira traz como destaque a produção industrial nos Estados Unidos em setembro (11h15). Antes, às 10h30, serão conhecidos os preços de importação e de exportação no mesmo mês. Depois, às 12h, é a vez do índice de confiança das construtoras em outubro.

 

Logo cedo, na Europa, saem números da inflação ao consumidor (CPI) na zona do euro e sobre o sentimento econômico na Alemanha, além de indicadores de preço no Reino Unido. No Brasil, o calendário do dia traz o desempenho do setor de serviços em agosto (9h). 

 

Mas é o ambiente político em Brasília que continua no foco do mercado doméstico, após mais uma troca de farpas entre Temer e Maia. Ontem, caiu por falta de quórum a sessão de debates sobre a segunda denúncia contra o presidente da República na Câmara, retardando o processo. Uma nova sessão foi marcada para hoje, para iniciar a discussão sobre o parecer que recomenda aos deputados a rejeição à continuação do processo, mas pode não haver quórum novamente.

 

Com a demora, fica cada vez mais distante a discussão ainda neste ano da reforma da Previdência. A equipe econômica continua emplacando o discurso de que a mudança de regras para aposentadoria é urgente, capaz de garantir um crescimento econômico sustentável ao Brasil, mas o lado político tem emperrado a questão.

 

É que 2018 está logo ali...e nenhum candidato parece disposto em assumir na campanha, um tom reformista, tal qual adotou Temer, que foi ascendido ao cargo de presidente com o impeachment da antecessora, Dilma Rousseff. Afinal, angariar votos nas urnas mediante o compromisso político de reformas estruturantes profundas parece nada popular.

 

Quem também não tem certezas dos votos é o candidato derrotado em 2014, o senador Aécio Neves. Está marcada para hoje a votação no plenário do Senado para decidir se o tucano continua afastado do mandato, por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte ainda pode impedir que a votação na Casa seja em voto secreto e, se a votação for aberta, fica mais complicado para os senadores se comprometerem.  

 

Nesse jogo político de toma-lá-dá-cá, os parlamentares vão “cozinhando em banho maria” a nova denúncia contra Temer, o futuro de Aécio Neves, negociando troca de favores por votos e cargos...Mas eles não parecem ter muitas dúvidas de que o presidente também vai conseguir se safar dessa, nem de que o senador retomará o mandato. Como em uma grande família, eles são todos muito unidos e também ouriçados; brigam por qualquer razão, mas acabam sempre pedindo perdão.

 

 

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