Um "jeitinho" na meta


O governo ainda não bateu o martelo em relação à nova meta fiscal de 2017 e de 2018 e a demora em definir um número mantém elevada a expectativa (e o nervosismo) no mercado financeiro. Os investidores aguardam uma definição, mas sabem que a equipe econômica saiu derrotada na queda-de-braço com o núcleo político, o que realça as dificuldades de aprovar as propostas originais das reformas e medidas em pauta no Congresso.

O fato é que o governo não tem mais de onde tirar dinheiro e quer aumentar o teto do rombo nas contas públicas para simplesmente caber o tamanho do Estado, dando um "jeitinho" na meta fiscal, o que sinalizaria que as "coisas não caminham bem", como disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Sem aval para aumentar impostos e com dificuldades para aprovar o programa de perdão de dívidas das empresas (Refis), depois de já ter perdido o prazo para aprovar a reoneração da folha de pagamentos, o governo adiou o anúncio.

Sem previsão de nova data, a incerteza fiscal tende a pesar um pouco mais nos negócios locais, a despeito do apetite por risco que prevalece no exterior. Ontem, o dólar fechou acima de R$ 3,20, no maior nível em um mês, em meio às dúvidas quanto às medidas de alívio que serão tomadas para evitar que o governo gaste o quanto quiser bem como garantir o quanto conseguirá em recursos para reforçar o caixa.

Os esforços da equipe econômica se concentram em duas frentes: cortar os gastos com o funcionalismo e arrumar receitas com as concessões públicas, justificando, então, as metas fiscais piores. O objetivo é gerar R$ 25 bilhões através da venda de aeroportos e hidrelétricas da Cemig.

Hoje, o presidente Michel Temer reúne-se com o senador Aécio Neves e deve tratar dessa questão, entre outros assuntos. Já o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, recebe o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, e o presidente da Petrobras, Pedro Parente. Além disso, Meirelles almoça com o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn.

A equipe econômica ainda enfrenta pressões políticas para aceitar um déficit primário maior que os R$ 159,5 bilhões para 2017 e 2018. Mas a previsão de um saldo negativo de R$ 170 bilhões para ambos os períodos é "especulação", assegurou o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil), deixando a primeira opção na mesa de apostas.

Enquanto esperam o anúncio oficial, o noticiário nos bastidores revela uma perda de brilho de Meirelles, em quem falta traquejo político. Além de os números piores significarem um rombo maior nas contas públicas, o "time dos sonhos" do governo passa uma mensagem ruim ao mercado financeiros, de que está conseguindo, no máximo, administrar o déficit, sem capacidade de melhorar a trajetória da dívida, apenas repetindo a meta verificada em 2016.

A decisão de não corrigir o déficit fiscal por três anos consecutivos, evidenciando a ausência de esforço para conter os gastos públicos ou aumentar as receitas, pode culminar em um novo rebaixamento (downgrade) da nota de risco de crédito soberano (rating) do país. O Brasil pode ser taxado de dar um potencial calote da dívida, em meio à falta de sinais mais contundentes de compromisso com o ajuste fiscal.

E o revés de Meirelles contou com um fogo amigo. O ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, insistiu na mudança das metas, diante da delicada situação fiscal. Para piorar, foi dele a ideia de que os déficits deste ano e do próximo tivesse o mesmo valor, minando a proposta de buscar uma tendência decrescente da dívida. Ou seja, o debate em torno da questão não foi contaminado apenas pelos interesses do núcleo político.

No exterior, as tensões geopolíticas entre Estados Unidos e Coreia do Norte foram suavizadas, o que permite uma continuidade aos ganhos observados ontem. Os índices futuros das bolsas de Nova York estão alta, assim como as principais bolsas europeias, reagindo à decisão de Pyongyang de não avançar com os planos de atacar o território norte-americano de Guam, no Pacífico.

Os ativos considerados seguros, como o ouro e o iene, perdem atratividade, mas o dólar segue fortalecido pela perspectiva de que o Federal Reserve pode aumentar os juros dos EUA mais uma vez este ano. O petróleo oscila entre altas e baixas, mas é cotado abaixo de US$ 48 por barril, diante das dúvidas sobre o excesso de oferta.

De qualquer forma, a notícia sobre o recuo de Kim Jong Un traz alívio aos investidores e abre espaço para digerir o noticiário econômico. Na agenda do dia, as vendas no varejo são destaque. No Brasil, os dados de junho sobre o comércio serão divulgados às 9h e a expectativa é de melhora no setor, com alta de 0,5% após um leve recuo em maio.

Em relação a um ano antes, deve ser registrada a terceira taxa positiva consecutiva, mostrando uma retomada gradual da atividade. Ambas as previsões excluem os segmentos de material de construção e de veículos. Depois, sai o desempenho do comércio varejista nos Estados Unidos em julho (9h30).

No mesmo horário, também serão conhecidos os preços de importação e de exportação no mês passado, além do índice de atividade industrial na região de Nova York. Ainda no calendário norte-americano, têm os estoques das empresas e a confiança das construtoras, ambos às 11h.

Por fim, às 17h, é a vez do fluxo de capital estrangeiro nos EUA em junho. Logo cedo, na Europa, foram conhecidos índices de preços ao consumidor, ao produtor e de imóveis no Reino Unido, além da primeira leitura do Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha no segundo trimestre deste ano.

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