Fogo e fúria

09.08.2017

 

O sentimento de aversão ao risco prossegue hoje nos mercados internacionais, em meio à escalada da tensão entre Estados Unidos e Coreia do Norte, após o presidente norte-americano, Donald Trump, prometer "fogo e fúria", caso o país asiático continue com as ameaças. A declaração feita ontem penalizou o fechamento da sessão em Wall Street e na Bovespa, ecoando nos negócios na Ásia e contaminando a abertura do pregão na Europa.

 

Nesse ambiente, os investidores buscam proteção no ouro e o iene, que avançam, assim como no rendimento dos títulos norte-americanos (Treasuries). Nos demais ativos, como o petróleo e as moedas emergentes, o sinal negativo prevalece, com as preocupações quanto ao desenvolvimento do arsenal nuclear em Pyongyang sendo um gatilho para uma realização de lucros no exterior, em meio à agenda esvaziada nos EUA e na zona do euro.

 

Ainda assim, os negócios podem tentar engatar uma recuperação ao longo do dia, já que quase um terço da população dos EUA não leva a sério o que Trump diz e não acreditam na Casa Branca, conforme pesquisa da CNN. Mas as informações na imprensa internacional dão conta de que a Coreia do Norte está em vias de se tornar uma potência nuclear, sendo capaz de colocar uma bomba em um míssil intercontinental.

 

Diante desse clima iminente de ataque militar "como o mundo nunca viu", os dados de inflação na China ficam em segundo plano. Ainda assim, merece atenção a manutenção no ritmo de alta do índice de preços ao produtor (PPI) chinês em julho, que subiu 5,5% em relação a um ano antes, diante do salto nos preços das commodities e da demanda firme por causa de projetos de infraestrutura e imobiliários no país. A previsão era de alta de 5,6%.

 

No varejo chinês, os preços ao consumidor (CPI) subiu 1,4% no mês passado, em base anual, também ligeiramente abaixo da estimativa de 1,5% e ficando longe do alvo de Pequim de alta até 3% para a inflação. A abertura do dado mostra que os preços de alimentos caíram 1,1% no período, de -1,2% no mês anterior, ao passo que os produtos não alimentícios desaceleram o ritmo de alta para 2%, de 2,2% em junho.   

 

No Brasil, a inflação oficial ao consumidor (IPCA) também é destaque. O indicador deve abandonar o terreno negativo - após cair 0,23% em junho, quando registrou a primeira taxa mensal negativa desde 2006 - e subir 0,18% em julho, refletindo a mudança da bandeira tarifária, de verde para amarela, o que tende a fazer da energia elétrica a vilã da inflação no mês passado.

 

Além disso, o IPCA deve refletir os primeiros impactos da alta de PIS/Cofins sobre os combustíveis. Ainda assim, o resultado, se confirmado, deve ser o menor para meses de julho desde 2014, quando o IPCA oscilou em alta de 0,01%. Já a taxa acumulada em 12 meses deve ficar abaixo de 3% pela primeira vez desde o período até março de 2007, com alta de 2,67%, no menor nível desde os 12 meses até fevereiro de 1999.

 

Os números oficiais serão conhecidos às 9h e devem dar o sinal verde para a manutenção no ritmo de cortes na taxa básica de juros em setembro, no que seria a quarta redução seguida de um ponto porcentual (pp) na Selic, que já caiu cinco pontos no atual ciclo. A trajetória de queda da inflação e dos juros, é bom lembrar, é o grande trunfo do governo e sua equipe econômica, que ainda se esforça para equilibrar o rombo nas contas públicas.

 

Os investidores continuam otimistas com a trajetória de corte de juros pelo Banco Central, que pode ganhar reforço da Previdência, caso os esforços do governo para conseguir votá-la neste semestre tenham sucesso. Desde que conseguiu barrar a denúncia contra ele na Câmara, o presidente Michel Temer tem feito uma ofensiva para retomar a agenda de reformas.

 

Ele e a equipe econômica vêm se revezando em defender o texto sobre as novas regras para aposentadoria e reafirmando ser possível colocá-lo em votação em breve. Contudo, depois de dois dias com uma agenda intensa de eventos públicos em São Paulo, Temer passa a manhã para o Rio de Janeiro e depois embarca para Brasília, onde os ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Dyogo Oliveira (Planejamento) já estão.

 

Os esforços se justificam uma vez que a aprovação da reforma da Previdência não deve ser tarefa fácil. Os líderes dos três principais partidos do "Centrão" - PP, PR e PSD - já mandaram avisar que não há condições em aprovar a matéria neste semestre, especialmente após o desgaste com a votação da denúncia contra Temer. Para eles, o tema é delicado, ainda mais em véspera de ano eleitoral e em meio à expectativa de uma  nova denúncia.

 

Nos bastidores, o Centrão quer deixar claro ao governo a insatisfação com o espaço político dado a outros partidos que não votaram majoritariamente a favor de Temer, como o PSBD, o PSB e o DEM. Juntas, as bancadas do PP, PR e PSD somam 123 deputados, dando 87 votos a favor da permanência de Temer no cargo.

 

Com isso, a política do "toma-lá-dá-cá" deve voltar, pressionando mais as contas públicas e tornando cada vez mais crível o cenário de que a meta fiscal deste ano deve ser alterada. É bom lembrar que o objetivo inicial, de déficit primário de R$ 139 bilhões, foi considerado inflado, à época em que foi anunciado, no ano passado. Agora, o rombo parece insuficiente.

 

Ainda no calendário do dia saem os números de julho e da primeira parcial de agosto sobre o saldo da saída e entrada de dólares no país (12h30). No mês anterior, as incertezas com a crise política fizeram a saída de dólares no Brasil superar entradas em US$ 4,3 bilhões. Na safra de balanços, destaque para os resultados trimestrais de Gol e Gerdau, antes da abertura, e de Cosan e Oi, após o fechamento dos mercados.

 

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