Dia de decisão na Câmara


A Presidência da República está, mais uma vez, nas mãos do Legislativo. O plenário da Câmara discute hoje se autoriza ou não a abertura de processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o presidente Michel Temer pelo crime de corrupção passiva. O governo se esforça em barrar a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), trocando votos por emendas, enquanto a oposição promete prolongar a sessão, sem marcar presença.

Sem saber qual estratégia terá êxito, o dia deve ser de tensão nos negócios. Até porque há chance de a sessão sequer ocorrer na Câmara, pelo simples fato de nem o governo nem a oposição terem o quórum mínimo de 342 deputados para dar início à votação que irá decidir o destino de Temer. Se assim for, tudo fica pendente e continua como está, até as eleições de 2018, em outubro.

Se o processo for aberto, o presidente é afastado do cargo por até 180 dias, dando lugar ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Se Temer for condenado, ocorre eleição indireta; se absolvido, ele volta ao Palácio do Planalto. Mas é no arquivamento rápido do processo que o governo tem se empenhado.

Em mais um gesto na busca por votos, Temer participou de um jantar com deputados, a fim de convencer os indecisos a votarem contra a denúncia. Ele tem demonstrado confiança de que a Câmara irá rejeitar a denúncia, vencendo a votação. Pelas estimativas do governo, o total de votos a favor do presidente e pelo arquivamento da denúncia pode chegar a 280.

E é exatamente no placar da votação que os investidores estão de olho. Os votos a favor da permanência de Temer podem dar sinais claros sobre a capacidade de resistência dele a uma segunda denúncia, que deve sair em breve. O apoio da base aliada também será fundamental para medir a possibilidade de aprovar a reforma da Previdência ainda neste ano. Afinal, um presidente fraco, sob suspeição, não será capaz de tocá-la adiante.

Para o senador Romero Jucá, se a mudança nas regras da aposentadoria não for aprovada agora, o tema entrará em discussão na campanha para a eleição de 2018. Segundo ele, sem as novas leis, o Brasil pode virar uma Grécia (!). E é por causa das chances da reforma da Previdência ser apreciada ainda neste ano que o investidor tem mantido o sangue-frio em relação à fragilidade fiscal.

Agora que o Banco Central decidiu sinalizar que pode manter o ritmo e cortar os juros básicos em mais um ponto em setembro, é o cenário político-fiscal que fica em evidência. Afinal, por mais que tenha deixado de ser crime lembrar que juros menores reduzem a dívida pública, continua complicado cumprir a meta de déficit de R$ 139 bilhões neste ano.

A equipe econômica deve empurrar até o fim deste mês a decisão de ampliar o rombo das contas públicas neste ano, o que abre espaço para as especulações nos bastidores. Por ora, fala-se em piorar em R$ 20 bilhões a meta fiscal de 2017, para um déficit de R$ 159 bilhões. A de 2018, de R$ 129 bilhões, tende a saltar para R$ 140 bilhões.

Os números ainda não foram definidos. No dia 31 de agosto, o governo precisa entregar o projeto do Orçamento de 2018 ao Congresso, quando os alvos deste e do próximo ano podem ser revistos. Mas a máquina pública pode ficar paralisada antes do fim do mês, antecipando o anúncio para logo e liberando parte dos recursos que estão bloqueados.

Assim, a queda da taxa Selic faz parte da tentativa do governo de aliviar um círculo vicioso, no qual a questão fiscal continua sendo o principal problema, e manter o discurso virtuoso, de que a trajetória cadente da inflação e dos juros tende a recuperar a atividade, gerando emprego e renda à população. Só que falta o lado político nesse argumento econômico.

Por tudo isso, as atenções do dia estão voltadas para a sessão na Câmara sobre a admissibilidade da denúncia contra Temer por corrupção passiva, que deve se estender ao longo desta quarta-feira. Entre os indicadores, destaque apenas para o fluxo cambial em julho (12h30).

No exterior, serão conhecidos os dados sobre a criação de emprego no setor privado nos Estados Unidos em julho (9h15), que servem como um parâmetro para os números oficiais do mercado de trabalho norte-americano (payroll), na sexta-feira. Também é esperada a posição dos estoques de petróleo bruto e derivados no país até a semana passada (11h30). No fim do dia, saem indicadores sobre a atividade no setor de serviços na China e no Japão.

Por ora, a queda no preço do barril de petróleo, que volta a ser negociado abaixo de US$ 50, devolvendo parte dos ganhos acumulados nas últimas sete semanas, pesa nas ações de petrolíferas na Europa. As mineradoras também recuam, após o balanço decepcionante da gigante anglo-australiana Rio Tinto. O cobre cai pelo segundo dia seguido, liderando as perdas entre os metais básicos.

Nas moedas, o euro é cotado no maior valor desde janeiro de 2015, após registrar em julho o melhor desempenho desde março de 2016 e o mais longo rali desde 2013. A moeda única ganha terreno em relação ao dólar, em meio ao diferencial de taxa de juros praticada pelos bancos centrais europeu (BCE) e dos Estados Unidos (Fed) e diante da perda de confiança dos investidores quanto à agenda pró-crescimento do presidente norte-americano, Donald Trump.

Ainda assim, a safra de balanços sustenta Wall Street em alta. Os índices futuros das bolsas de Nova York estão no positivo nesta manhã, em meio aos resultados corporativos e à espera dos dados sobre a economia dos EUA. Ainda assim, os números mistos sobre a atividade, a inflação e o consumo no país, bem como o processo de aperto monetário em curso, elevam as dúvidas quanto ao fôlego para esticar o rali dos negócios por lá.

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