Um olho na economia, outro na política


A agenda econômica volta a pautar os mercados domésticos nesta terça-feira, mas sem descuidar do cenário político, que também retorna ao radar dos investidores, com o fim do recesso parlamentar. A ata da reunião da semana passada do Comitê de Política Monetária (Copom), às 8h, abre o dia e deve repetir o tom suave (“dovish”) do comunicado, calibrando as apostas para a taxa básica de juros cair abaixo de 8% neste ano.

Na sequência, a produção industrial de junho (9h) tende a reforçar a perspectiva de que a Selic terminará o ano na faixa de 7%. Os dados da indústria devem confirmar a lenta retomada da atividade. Esse cenário combinado com a inflação sob controle justifica a ousadia do Banco Central no ciclo de cortes dos juros.

Depois de não adotar a postura sugerida em maio, quando sinalizou que uma “redução moderada” do ritmo de cortes na Selic seria “adequada”, o Copom deve esclarecer os motivos que levaram a manter o passo e cortar o juro em mais um ponto em julho. A dúvida é se o documento do BC irá além, indicando quais podem ser os próximos passos.

A expectativa é de que a autoridade monetária mantenha certo grau de liberdade e evite se comprometer, deixando a porta aberta para repetir a dose em setembro – ou não. Assim, os investidores esperam encontrar mais indícios para definir suas posições. De qualquer forma, até setembro, novos avanços no andamento das reformas estruturais são esperados.

Por isso, o radar dos mercados também está direcionado para Brasília, onde os parlamentares voltam das férias. A princípio, está marcada para amanhã a votação no plenário da Câmara da denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer. Mas ainda há dúvidas se haverá quórum para abrir a sessão.

Para tanto, são necessários ao menos 342 deputados. Caso esses dois terços do total não seja alcançado, a votação pode acabar ficando para a semana que vem. Já em relação ao placar, é praticamente certo que o presidente terá mais que os 172 votos necessários para arquivar o processo, ao passo que a oposição se esforça para chegar aos 200 votos.

Temer mantém um intenso corpo a corpo com os deputados, às vésperas da votação e pretende se encontrar com até 40 aliados indecisos antes de quarta-feira. No esforço de acumular votos para barrar na Câmara a denúncia contra o presidente, o Palácio do Planalto continua liberando emendas aos parlamentares, com o montante superando R$ 3,5 bilhões nos últimos dois meses.

Mas é na magnitude da vitória no plenário da Câmara que os investidores estão atentos. Afinal, o apoio dos deputados a Temer será um bom indicativo da capacidade do governo de levar adiante as demais reformas, principalmente a da Previdência. Ontem, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, lembro que o presidente da Casa, Rodrigo Maia, está empenhado na aprovação da medida, que deve ter os itens mais importantes aprovados.

O ministro reconheceu a potencial necessidade de mudar a meta fiscal deste ano, mas afirmou que o valor continua o mesmo e que o déficit de R$ 139 bilhões, "no momento", será seguido. Para Meirelles, é possível haver uma recuperação da arrecadação, mediante a aprovação de projetos no Congresso, como o da reoneração da folha de pagamentos e o novo Refis.

Porém, também é esperada uma nova denúncia da PGR contra Temer, iniciando todo o processo novamente na Câmara e adiando a pauta econômica. Ontem, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deu pistas de que segue na ativa, ao pedir mais uma vez a prisão do senador Aécio Neves e o afastamento dele do mandato, na volta aos trabalhos no Supremo Tribunal Federal (STF).

Ainda no calendário doméstico, saem os dados de julho da confiança do empresário (8h) e da balança comercial (15h). Na safra de balanços, destaque para o resultado de Cielo. No exterior, merecem atenção os números de junho da renda pessoal e dos gastos com consumo nos Estados Unidos (9h30) e também os índices PMI e ISM (10h45 e 11h) sobre a atividade industrial norte-americana.

Lá fora, a situação não está nada fácil para o presidente dos EUA, Donald Trump. Após a retaliação do presidente russo, Vladimir Putin, na esteira das sanções norte-americanas por causa da Síria, e da escalada da tensão geopolítica com a Coreia do Norte, a Casa Branca segue acumulando tensões. Os problemas internos, com a saída do diretor de comunicação, Anthony Scaramucci, após dez dias no cargo, mostram o jeito desgovernado da gestão.

O reflexo disso é a deterioração do dólar, em meio às incertezas sobre a habilidade de Trump para emplacar a agenda econômica. Tal dificuldade também respinga no rendimento dos títulos norte-americanos (Treasuries), uma vez que sem uma política de aumento de gastos e cortes de impostos, o Federal Reserve pode desacelerar o ritmo de alta de juros.

A moeda norte-americana está de lado nesta manhã, depois de recuar ontem ao menor valor em 13 meses ante os rivais com os investidores digerindo os mais recentes desdobramentos em Washington. A exceção fica com o dólar australiano, que caiu abaixo de US$ 0,80 após o Banco Central local (RBA) manter a taxa de juros em 1,5%, mas ensaia recuperação.

Esse comportamento fragilizado do dólar beneficia as commodities, com o barril do petróleo retomando a faixa de US$ 50, no nível mais alto em 10 semanas. Nas bolsas, a temporada de balanços continua dando ritmo aos negócios e garantindo ganhos às praças asiáticas e europeias. O sinal positivo também prevalece em Wall Street.

Tal desempenho deve favorecer o comportamento dos mercados domésticos, após os ganhos da Bovespa e do real em julho. A moeda brasileira liderou o ranking entre as principais moedas globais no mês passado, com valorização de quase 6%. Na bolsa, o mês chegou ao fim garantindo alta de 4,8%.

Ainda no calendário econômico externo, logo cedo saem dados sobre a indústria em países europeus, além da leitura preliminar do Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro no segundo trimestre deste ano. Ao longo do dia, as fabricantes de veículos nos EUA divulgam o desempenho das vendas de automóveis em julho.

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