Um dígito


A taxa de juros no Brasil deve ficar em apenas um dígito hoje, pela primeira vez em quatro anos, e cair ao menor nível desde agosto de 2013. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a Selic será conhecida só no fim do dia (18h), mantendo elevada a expectativa dos negócios locais. Antes disso, porém, tem o anúncio do Federal Reserve sobre a taxa de juros nos Estados Unidos (15h), que já deve agitar os mercados globais.

Enquanto lá fora, o custo do empréstimo deve seguir no intervalo entre 1% e 1,25%, por aqui a previsão é de mais um corte de um ponto percentual, para 9,25%. A Selic só ficou em um dígito em apenas duas ocasiões desde a adoção do regime de metas para a inflação, em 1999.

Primeiro, no governo Lula, quando operou quase um ano abaixo de 10%, até junho de 2010. O segundo momento aconteceu no governo Dilma e durou um ano e meio, até o fim de 2013. Nos dois casos, a volta da inflação levou a uma correção de rota, com os juros voltando a subir com força.

Com as decisões do Fed e do Copom amplamente esperadas, as atenções dos investidores se voltam para os comunicados que acompanham os anúncios, em busca de pistas sobre os próximos passos. No caso do Fed, a expectativa é por sinais sobre quando deve começar a redução do balanço patrimonial, inflado em cerca de US$ 4,5 trilhões pelos programas de recompra de bônus. Essa estratégia deve ser adotada antes de uma nova alta nos juros lá.

Já em relação ao Copom, a expectativa é de que o Banco Central indique quanto mais a Selic pode cair e também a que ritmo. As apostas são de que a extensão do ciclo monetário e o ritmo de flexibilização sejam condicionados às previsões de inflação, à evolução dos dados de atividade e a outros fatores de risco – como o político e as reformas.

À espera desses dois grandes eventos desta quarta-feira, os investidores recebem também os números do Tesouro Nacional sobre as contas do governo em junho (14h30), que devem potencializar as especulações sobre a mudança da meta fiscal deste ano. Ontem, relatos de que o rombo dos cofres públicos em 2017 poderia ser maior esquentou o clima entre a equipe econômica e o Palácio do Planalto, respingando nos mercados domésticos.

Rumores de que o ministro Meirelles (Fazenda) poderia deixar o governo, caso a meta fiscal deste ano, de déficit primário de R$ 139 bilhões, fosse revisada para pior estressaram os ativos locais. A ideia tem o apoio da ala política, mas não tem o aval do ministro, para quem um aumento no rombo seria um golpe na credibilidade da sua política econômica.

O problema é que a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer atropelou a agenda econômica do governo no Congresso e deu lugar à política do “toma-lá-dá-cá”, em meio às negociações com parlamentares por emendas e cargos em troca de apoio na votação no plenário da Câmara. Temer já ligou pessoalmente para cerca de 80 deputados considerados indecisos, a fim de “convencê-los”.

Seja como for, o fato de Meirelles não ter vindo a público desmentir o rumor criou o mal-estar entre os investidores. A assessoria da Fazenda até chegou a dizer que não procede a informação de que o ministro teria condicionado a permanência dele no cargo à meta fiscal, mas não esclareceu se tal meta pode (ou não) ser alterada...

Ao que tudo indica, o rumor mais se pareceu a uma estratégia reversa, na linha das muitas medidas tomadas pelo governo no estilo “vai que cola”. A explicação mais sensata é de que tornaram pública a história de que o governo vai rever a meta e o Meirelles vai deixar o governo, justamente para que Temer desista da ideia de aprofundar o rombo das contas públicas. Afinal, só com o boato, viu-se que a reação não foi nada boa.

Ainda assim, as chances de mudança da meta fiscal são reais, sem que isso necessariamente custe o cargo de Meirelles. Para manter as duas coisas (o ministro e a meta), o governo terá de recorrer a novos aumentos de impostos, o que pode ser reavaliado em breve. O revés do governo em relação à alta de PIS/Cofins nos combustíveis, suspensa pela Justiça, acionou esse alerta, diante da necessidade de buscar outros tributos para repor as perdas.

Ainda na agenda econômica, saem números sobre a confiança dos setores de construção civil e do comércio no Brasil (8h), que devem sinalizar um aumento do pessimismo em relação à recuperação econômica, com a instabilidade política pesando. Nos EUA, serão conhecidas as vendas de imóveis novos (11h) e os estoques semanais de petróleo (11h30).

Na safra de balanços, saem os resultados trimestrais da fabricante de cosméticos Natura, após o fechamento do pregão, e da empresa de telefonia Vivo, antes da abertura. No exterior, destaque para os demonstrativos contábeis de Boeing, Ford, Coca-Cola e Facebook, que devem manter o otimismo com a atual temporada.

Por ora, o sinal positivo prevalece entre os ativos de risco no exterior, diante dos ganhos acelerados do barril de petróleo, que é cotado acima de US$ 48 pela primeira vez desde junho, em meio aos sinais de redução do estoque norte-americano da commodity. O cobre também avança para os maiores níveis em mais de dois anos, o que anima os metais básicos.

Nas bolsas, os índices futuros de Nova York estão em alta, embalando os negócios na Europa, após uma sessão de valorização na Ásia. Entre as moedas, o dólar mede forças em relação às moedas rivais, com destaque para as perdas da libra esterlina e do dólar australiano ("aussie"), após dados sobre atividade e inflação na Inglaterra e na Austrália.

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