Balança mas não cai

06.07.2017

 

O governo tenta convencer os deputados de que a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Michel Temer é uma “peça de ficção”, com viés político – e não jurídico, a fim de manter o presidente no cargo. Mas é crescente o número de votos na Câmara pela continuidade do processo, com o presidente da Casa, Rodrigo Maia, já se preparando para ser o sucessor.

 

Hoje, porém, quem assume a cadeira de presidente da República é o comandante do Senado, Eunício Oliveira, pois Temer embarca para a Alemanha, onde acontece o G-20, e Maia preferiu evitar em ficar no cargo de forma interina, agendando uma viagem para a Argentina. Antes de seguir para a Europa, Temer promoveu um intenso corpo a corpo e reuniu-se com mais de 20 ministros, além de senadores e deputados, dizendo ter certeza de que será absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

 

Enquanto isso, a análise da acusação contra Temer prossegue na Câmara, onde cresce a possibilidade de derrota do presidente, ao mesmo tempo em que a oposição já fala que o parlamentares estariam vendendo apoio. Com a apresentação da defesa, ontem, começou a contagem do prazo para o relator, Sérgio Zveiter, apresentar o parecer, o que deve acontecer na próxima segunda-feira.

 

O perfil técnico de Zveiter deixa o Palácio do Planalto receoso quanto à conclusão do processo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Afinal, um relator com vínculos com o governo daria mais confiabilidade à versão de “trama de novela” da PGR e aceleraria o processo antes do recesso parlamentar – que ainda pode ser suspenso.

 

Para o autor da denúncia, Rodrigo Janot, as acusações da JBS contra Temer fazem parte de uma "narrativa fortíssima" e que a reação de Temer é uma técnica conhecida, na qual o denunciado tenta desacreditar a figura do acusador. Segundo ele, o acordo com os executivos da empresa era o único caminho de interromper a prática de crimes graves. Janot disse que "sentiu náusea" ao ouvir a gravação de Joesley Batista e Temer pela primeira vez.  

 

O risco político para os mercados domésticos vem em ao menos três frentes: novas denúncias da PGR contra Temer; o surgimento de novas delações que podem comprometer ainda mais o presidente, como a do doleiro Lúcio Funaro, que já se prepara para um acordo; e os efeitos econômicos, com o adiamento da agenda de reformas no Congresso e a piora da avaliação do Brasil pelas agências de risco.

 

Essas possibilidades impedem os investidores de baixar a guarda e assumir posições mais arriscadas nos ativos brasileiros. Até porque o cenário mundial parece caminhar, a passos lentos, rumo a uma nova era, com o fim do "dinheiro fácil" aflorando o debate sobre as chances de colapso nos mercados globais.

 

Ontem, o Federal Reserve sinalizou que antes de voltar a apertar o custo do empréstimo nos Estados Unidos irá começar o desmonte do balanço de ativos, que foi inflado pelas políticas de estímulo monetário (os chamados QEs, em inglês). O Fed não esmiuçou como e quando deve iniciar esse processo, o que pode impactar a liquidez global e os preços dos ativos.

 

Esse falta de detalhamento alterou as apostas em relação à próxima alta da taxa de juros norte-americana, de setembro para dezembro. Deste modo, por mais que não haja um consenso entre os membros do Fed sobre o momento exato para o terceiro aperto monetário em 2017 – o quinto do atual ciclo – uma nova alta na taxa de juros ainda deve acontecer neste ano.

 

A justificativa seria, justamente, uma forma de mitigar riscos de uma aceleração da inflação com o início do processo de redução da carteira do Fed em títulos daqui a alguns meses. O receio do Fed tem fundamento, pois os efeitos da retirada dos estímulos trazidos pelos três QEs adotados são inéditos - e desconhecidos.

 

A agenda econômica do dia divide as atenções entre a ata de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), às 8h30, e os dados sobre a criação de empregos no setor privado dos EUA em junho, às 9h15. Ambas as divulgações devem calibrar as apostas quanto à retirada dos estímulos monetários nos dois lados do Atlântico Norte.

 

Ainda no calendário norte-americano saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego e o saldo comercial em maio, ambos às 9h30, além de índices de atividade no setor de serviços no mês passado (10h45 e 11h) e dos estoques semanais de petróleo bruto e derivados no país (12h). No Brasil, destaque apenas para os números da Anfavea sobre o setor automotivo (11h20) em junho.

 

À espera desses indicadores e diante da confusão criada pelo Fed, os mercados internacionais estão de lado, em meio às incertezas quanto à reversão dos juros baixos nas principais economias desenvolvidas. Os índices futuros das bolsas de Nova York estão na linha d'água, com um leve viés negativo, ao passo que as principais bolsas europeias abriram a sessão sem um rumo único, após uma sessão igualmente indefinida na Ásia.

 

Nas moedas, o dólar mede forças antes os rivais de países desenvolvidos, como o euro, o iene e a libra, enquanto as moedas correlacionadas às commodities tentam tirar proveito do avanço nos preços do petróleo. O barril volta a ser negociado na faixa de US$ 45, após dados privados mostrarem a queda nos estoques do petróleo bruto e da gasolina nos EUA.

 

 

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