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O crime da mala


O revés sofrido pela Procuradoria-Geral da República (PGR) no fim da sexta-feira passada, com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de soltar o ex-deputado e ex-assessor especial Rodrigo Rocha Loures, o "homem da mala", deve trazer alívio aos mercados domésticos nesta segunda-feira. Com ele solto, a pressão sobre o presidente Michel Temer diminui, em meio ao início do prazo de defesa da denúncia por corrupção passiva.

Para o procurador-geral, Rodrigo Janot, "a mala diz tudo" e havia provas suficientes para pedir a prisão de Rocha Loures. Mas o ministro do STF Luiz Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato, mandou soltar Loures mediante o uso de tornozeleira eletrônica. O ex-deputado passou o fim de semana em casa e deve permanecer em domicílio das 20h às 6h de segunda a sexta-feira e durante aos sábados, domingos e feriados.

Loures, é bom lembrar, foi denunciando juntamente com Temer, após um vídeo feito pela Polícia Federal (PF) que mostra o ex-assessor do presidente deixando uma pizzaria em São Paulo com uma mala de R$ 500 mil. Para a PGR, os dois desvirtuaram os cargos públicos que exerciam visando apenas os próprios interesses escusos.

A questão, agora, passa a ser avaliada pela Câmara dos Deputados, que só começará a contar o prazo de 10 sessões para Temer apresentar a defesa quando houver quórum na sessão, às vésperas do recesso parlamentar. Apesar da denúncia contra o presidente ser grave e sem precedente, os investidores relativizaram os riscos iminentes de perda de mandato, diante de um número pequeno de parlamentares contra Temer.

As atenções dos negócios locais seguem voltadas na aprovação das reformas. A trabalhista pode ser votada no plenário do Senado antes do recesso, que começa no próximo dia 18, enquanto a da Previdência só deve voltar à pauta em agosto. No mercado doméstico, o dólar começa julho na faixa de R$ 3,30 e a Bovespa encostada nos 63 mil pontos, sendo que ambos os patamares já incorporaram a aprovação da reforma trabalhista em breve.

Se não passar pelos senadores em até duas semanas, ou se for rejeitada no plenário, o estresse volta aos mercados. Aliás, quem pode reaparecer na Casa, é o tucano Aécio Neves, que retomou o mandato de senado, após o ministro do STF Marco Aurélio Mello negar o pedido de prisão e cancelar o afastamento dele do cargo.

Nessa reviravolta política, com amparo da Justiça, os investidores devem retomar o apetite por risco, impulsionados ainda pelo ambiente internacional. O avanço dos preços do petróleo pelo oitavo dia seguido, na maior sequência de alta do ano, sustenta as bolsas no azul, com os ganhos liderados pelas ações de petrolíferas.

Dados sobre a atividade industrial melhor que o esperado na zona do euro em junho dá ritmo aos negócios na região. Porém, a véspera do feriado nos Estados Unidos, pelo Dia da Independência, enxuga a liquidez global e encerra o pregão em Wall Street mais cedo, às 14h. Nesse ambiente de volume reduzido, o dólar se fortalece, após registrar o pior início de ano desde 2006, à espera de novos sinais sobre o fim da era de políticas ultrafrouxas pelos principais bancos centrais do Ocidente.

A segunda metade do ano começa a todo vapor, em termos de divulgações e eventos econômicos, no Brasil e no exterior. Lá fora, as atenções se dividem ente a ata das últimas reuniões de política monetária do Federal Reserve, na quarta-feira, e do Banco Central Europeu (BCE), na quinta-feira, além dos dados sobre o mercado de trabalho nos Estados Unidos em junho, no dia seguinte.

Após o ambiente global ganhar contornos mais preocupantes em relação à liquidez de recursos, por causa do tom mais duro (“hawkish”) na fala dos BCs, o mercado irá buscar pistas sobre a probabilidade de desaceleração forte dos estímulos monetários no curto prazo. Assim, dados de atividade, inflação e a comunicação das autoridades ganham peso.

No Brasil, após o Conselho Monetário Nacional (CMN) fixar metas menores de inflação para o biênio 2019-2020, de 4,25% e 4%, respectivamente, merece atenção a pesquisa semanal Focus do Banco Central (8h25), na qual o mercado deve responder de forma positiva e a credibilidade da equipe econômica deve levar à convergência dessas expectativas no cenário à frente.

Amanhã é a vez da produção industrial em maio e, na sexta-feira, sai o resultado oficial da inflação ao consumidor em junho (IPCA). A combinação de atividade fraca com a trajetória de queda dos preços mantém-se favorável aos cortes na taxa básica de juros. Essa dinâmica, aliás, é o que tem evitado um estresse maior nos mercados domésticos.

Os investidores têm tirado proveito da redução da Selic rumo a um dígito, ao mesmo tempo que enxergam na "carta de intenções" do CMN uma pressão adicional pela aprovação das reformas estruturantes - se não neste, no próximo governo. Afinal, sem ajustes na economia, é complicado caminhar para alvos tão baixos de inflação, diante da famigerada indexação de preços e da produção insuficiente para atender à demanda - quando há.

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