Um governo que não governa

08.06.2017

 

Os investidores seguem atentos ao julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a chapa eleita de 2014, que terá sessões ao longo desta quinta-feira. Contudo, o mercado financeiro tem se mostrado "indiferente" em relação à permanência ou não do presidente Michel Temer no cargo. O risco é ele ficar em um governo que não governa, sem o apoio da base aliada para avançar com as reformas econômicas no Congresso.

 

Do ponto de vista do mercado financeiro, importa pouco quem estará sentado na cadeira da Presidência da República e sim a continuidade da política econômica. Porém, o apoio dos partidos governistas, em especial do PSDB, parece frágil e pode culminar no desembarque de outras legendas, com o lado político atrapalhando o percurso da agenda de reformas.

 

A travessia até parecia tranquila, após a aprovação do texto das novas leis trabalhistas em uma das três comissões do Senado em que o projeto é avaliado. Mas o placar acirrado na aprovação na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), por 14 votos a 11, e o cronograma apertado, com a pauta chegando ao plenário da Casa no fim deste mês, reiteram a percepção de que uma aprovação definitiva não será nada fácil.

 

Daí, então, o TSE voltou a preocupar. No curto prazo, é possível pensar em três cenários, pelo menos. O primeiro prevê que Temer continuaria até 2018, reaglutinando a força política que, embora menor, seria suficiente para avançar com as reformas.

 

O segundo é aquele em que Temer permanece no cargo, mas com pouca força política, configurando-se em um "pato manco" (do inlgês lame duck), que se arrasta para cumprir o mandato, mas sem apoio para governar. Por fim, haveria uma troca de poder via eleição indireta no Congresso, convocada em até 30 dias.

 

De todos, a segunda hipótese é tida pelo mercado como a menos sustentável, pois, na prática, desemboca em uma das possibilidades extremas, de permanência ou de queda. Seja qual for o desfecho, a aposta é de que a questão política no Brasil terá uma solução ordenada, capaz de manter a atual equipe econômica e aprovar as reformas.

 

Na prática, a questão parece caminhar de outra maneira, incapaz de reduzir o nível de incertezas na cena política em Brasília. Esse receio de um governo que não se sustenta em pé tem elevado o nervosismo nos mercados domésticos - por mais que os investidores tentem passar certa tranquilidade nos negócios locais, sustentando a Bovespa acima dos 60 mil pontos e o dólar na faixa entre R$ 3,25 e R$ 3,30.

 

Mas não é somente no Brasil que a questão política tem pesado. No exterior, o testemunho do ex-diretor do FBI James Comey no Senado dos Estados Unidos, marcado para hoje, assusta Wall Street, embora o sinal positivo nesta manhã também tente passar uma mensagem de aparente normalidade nos mercados ao longo do dia.

 

O caso ganhou contornos ainda mais estranhos diante da recusa de diversos escritórios de advocacia de defender Trump. O receio é que o conteúdo das declarações de Comey possam justificar a abertura de um processo de impeachment contra o presidente norte-americano Donald Trump.

 

Ontem, porém, um comunicado publicado por Comey teve pouco efeito. No texto, o ex-diretor do FBI afirma que Trump pediu-lhe para recuar em uma investigação sobre o ex-assessor de segurança nacional Michael Flynn e cobrou lealdade. Comey disse ainda que ficou preocupado com a possibilidade de Trump estar tentando criar “algum tipo de relação de proteção”, apesar da independência do FBI em relação ao Executivo.

 

Outro fator relevante são as eleições parlamentares no Reino Unido, que também acontecem hoje. A antecipação do pleito foi uma estratégia adotada pela primeira-ministra Theresa May para dar mais força ao Partido Conversador durante as negociações da saída do Reino Unido da União Europeia (UE), o chamado Brexit.

 

Mas o tiro pode sair pela culatra. O Partido Trabalhista, liderado por Jeremy Corbyn, pode conquistar mais assentos no Parlamento, dificultando os rumos da ilha britânica fora da UE. Após os atentados terroristas no país, a margem entre os conservadores e os trabalhistas diminuiu consideravelmente, mostrando os eleitores mais divididos.

 

Diante desse contexto político extremamente atribulado em nível local e global, é possível entender a pouca atenção aos indicadores econômicos. Ainda assim, merecem atenção na agenda do dia os números do IBGE sobre a safra agrícola no Brasil (9h) e a decisão sobre a taxa de juros na zona do euro (8h45), que será seguida de uma entrevista coletiva do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi (9h30). No fim do dia, serão conhecidos dados da China sobre a inflação ao consumidor e ao produtor.

 

Antes desses eventos-chave, os investidores evitam adotar grandes movimentos. As principais bolsas europeias exibem leves oscilações, sem uma direção definida, replicando o movimento observado na sessão asiática. Ainda assim, o aumento acima do esperado das exportações chinesas garantiu ganhos em Hong Kong e em Xangai.

 

No mês passado, as exportações na China cresceram 8,7%, em termos dolarizados e em relação a um ano antes, mais que a previsão de alta de 7,2%. No mesmo período, as importações saltaram 14,8%, também superando a estimativa de +8,3%. Como resultado, a balança comercial chinesa teve superávit de US$ 40,8 bilhões.

 

Esses números tentam embalar as commodities e as moedas correlacionadas, em meio aos sinais de aumento da demanda global e de resiliência do mercado consumidor chinês. O petróleo avança, em meio à ausência de rumo único do dólar em relação aos rivais. A libra esterlina se fortalece, o xará australiano ("aussie") anda de lado, ao passo que o euro e o iene recuam, diante dos sinais de que os estímulos monetários adotados pelos BCs da região da moeda única e japonês (BoJ) estão próximos do fim.

 

 

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