À espera de um milagre

26.05.2017

 

 

A persistência da crise política em Brasília atenuou a confiança dos mercados na solução costurada pela base aliada para uma eventual sucessão presidencial e trouxe a volatilidade de volta aos negócios locais. Esse movimento foi observado ontem e deve continuar hoje, com uma dose extra de cautela, diante da proximidade do fim de semana, que pode trazer novos desdobramentos, elevando as incertezas.

 

Até então, a Bovespa, o dólar e as taxas de juros vinham emitindo sinais de mais tranquilidade, devolvendo boa parte da oscilação da quinta-feira passada, quando se deu o pior dia do mercado brasileiro desde 2008. Ontem, porém, a bolsa oscilou mais de 1 mil pontos, entre as pontuações máxima e mínima do dia, ao passo que o dólar voltou a flertar com a marca de R$ 3,30, sem forças para retomar a faixa de R$ 3,25.

 

Questões externas foram apontadas como o motivo da inversão de sinal local. Nesta manhã, o sinal positivo prevalece em Wall Street e no petróleo, mas o que deve decidir a direção do dia lá fora é a segunda estimativa do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos nos três primeiros meses deste ano (9h30). Também é esperada a leitura final do índice deste mês do confiança do consumidor norte-americano (11h).

 

Por aqui, o fato é que os investidores estão se iludindo com a crença de que as reformas trabalhista e previdenciária podem prosseguir no Congresso, independentemente do futuro de Michel Temer. Apesar dos repetidos sinais de que Temer não irá dar de barato a queda, seja com o presidente ficando ou saindo, a perspectiva é de que haverá dificuldades para manter uma base tão aliada e uma agenda que impulsione a economia.

 

Talvez o mercado doméstico esteja sendo, então, complacente demais com os riscos políticos, acreditando que uma saída rápida seja boa - e possível. Mas à medida que a preocupação entre os investidores ganhar corpo, com as reformas não sendo votadas em nenhuma das hipóteses e cenários, haverá um efeito perverso nos preços dos ativos.

 

Assim, um prolongamento da crise política provocaria uma depreciação substancial do real, um aumento do prêmio de risco do país e uma piora na projeção para a inflação nos próximos anos. O contrário também é verdadeiro, com uma saída rápida da crise levando a uma melhora considerável dos mercados - e essa aposta, por ora, prevalece.

 

Uma das hipóteses mais citadas é que a chapa eleita em 2014 seja cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em julgamento que será retomado no dia próximo 6 de junho. Mas o processo ainda corre o risco de ter pedido de vista de alguns juízes, uma vez que a balança de votos passou a pender para o lado da cassação.

 

Antes do abalo da JBS em Brasília, a sensação era de vitória de Temer na questão. O presidente, aliás, tratou de dar um recado claro aos que apostam em um desfecho rápido para a ação e mostrou-se disposto em alongar o processo no TSE, usando "todos os recursos jurídicos possíveis" e não dando folga ao embate.

 

Assim, o caso pode se arrastar pelo menos até outubro, quando faltará um ano para as eleições de 2018. Ontem, a cúpula do PSDB, que esteve reunida em São Paulo, reiterou que manterá o apoio ao presidente até a decisão final do TSE, após reunião entre o presidente do partido, Tasso Jereissati, com o governador e o prefeito de São Paulo na casa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

 

Na Corte eleitoral, o silêncio do presidente, Gilmar Mendes, torna o desfecho imprevisível. O ministro não tem conversado sobre a ação nem com colegas, nem nos bastidores. Já o relator do processo, Herman Benjamin, terá de deixar a Corte e o Palácio do Planalto já pensa em um nome para substituí-lo, assumindo também a relatoria do caso.

 

De qualquer forma, cresce a mesa de apostas no mercado doméstico sobre os possíveis nomes para a presidência de um governo tampão. Fala-se do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga para comandar o Ministério da Fazenda, no caso do atual na Pasta, Henrique Meirelles, ascender ao posto máximo da República.

 

Mas até a falta de consenso em torno de um nome para a sucessão de Temer é usada pelo presidente como moeda de troca para negociar uma sobrevida no governo. A permanência dele no cargo está, obviamente, condicionada à aprovação das reformas e existem dúvidas quanto a força política do presidente para avançar com a pauta.

 

Por isso, o melhor caminho seria a formação de um novo governo, via eleição indireta. Esse percurso reforça a tese de que só com uma transição de poder é possível aprovar as reformas trabalhista e previdenciária no Congresso ainda neste ano.

 

O que não se sabe, porém, é se a atual base aliada assumiria uma postura independente ao sucessor, reduzindo ainda mais os votos dos partidos governistas. Afinal, com a cena política de 2018 cada vez mais perto, o comprometimento de uma coalizão com medidas impopulares tende a perder apoio.

 

Na agenda doméstica desta sexta-feira, saem dados da construção civil sobre o custo e a confiança no setor (8h) e também números referente à inflação ao produtor em abril (9h). Depois (10h30), o Banco Central publica a nota com os dados consolidados do setor público, que devem corroborar os números anunciados ontem pelo Tesouro.

 

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