Base aliada já planeja o pós-Temer


O governo até que colecionou vitórias no Congresso no primeiro dia de votações após o início da mais recente crise em Brasília. A oposição, porém, deu trabalho e a estratégia do presidente Michel Temer de passar uma mensagem de normalidade pode não convencer. Nos bastidores, a base aliada já prepara planos para uma nova sucessão no Executivo, com os partidos apostando na cassação da chapa eleita em 2014.

Liderados pelo PSDB, partidos de sustentação do governo consideram que Temer já perdeu as condições de ficar no cargo, mas a resistência dele em renunciar pode ter como solução uma saída via o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O processo será retomado no próximo dia 6 e, agora, o consenso é de que a cassação resolveria o impasse institucional e livraria o presidente de uma "confissão de culpa".

O maior risco é Temer continuar e não ter governabilidade para aprovar as reformas, pois não dá para fingir que a crise que eclodiu com a delação executivos da JBS não exista. Nem dá para descolar o Congresso do Palácio do Planalto, por mais que o governo tente mostrar força para sair da crise e trabalhe em conjunto com os parlamentares.

Afinal, se mesmo antes de estourar a bomba da JBS o governo já não tinha os 308 votos necessários para avançar a reforma da Previdência ao Senado, quanto mais agora. Colocar a pauta em votação no plenário da Câmara no início do mês que vem pode ser um duro revés ao governo, entoando o coro para a saída do presidente.

Na lista dos possíveis sucessores, surgem nomes de políticos e juízes. Além do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos mais cotados é o atua ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Ontem, após participação em um evento com empresários do setor de infraestrutura, Meirelles foi questionado se poderia substituir Temer.

Sem responder à pergunta, o ministro apenas sorriu e acenou, caminhando até o local do seminário. Aliás, ficou muito claro ontem que a tentativa do governo de mostrar que continua trabalhando pode ser um grande risco. Isso porque foi uma das poucas vezes que Meirelles escapou de uma roda de jornalistas que o esperavam para uma sessão de perguntas informais, no chamado “quebra-queixo”.

Meirelles não consegue esconder o mal-estar da sua posição. Seja porque está no governo e é cotado para a sucessão, seja porque tem passagem na J&F, controladora do grupo JBS, onde presidia o Conselho de Administração. Ele já tratou de esclarecer que se desligou do cargo consultivo quando assumiu a Fazenda no governo, no ano passado.

Mas o que ele ainda não deixou claro é se quando trabalhava na J&F teve conhecimento das denúncias que vieram a público – e se elas são verdadeiras. Por mais que seja provável que o ministro não soubesse dessas irregularidades, seria importante dar uma explicação convincente - que não apenas pareça ser, mas que de fato é.

Seria melhor do que dizer o mais cotado para ser o próximo presidente apenas afirmar que acredita na aprovação das reformas, “mesmo se Temer no comando do país”. Mas a fala de Meirelles foi direcionada aos agentes econômicas, pois o que interessa mesmo é ver as contas públicas arrumadas, seja quem estiver no comando.

O mercado financeiro não tem amor pelo presidente Michel Temer, mas sim pelas reformas. Para os investidores, é fundamental que as mudanças nas leis trabalhistas e nas regras para aposentadoria sejam aprovadas, o quanto antes. Só assim, é possível afastar o risco de um rebaixamento da nota de risco de crédito (rating) do Brasil e retomar a trajetória do crescimento, via investimentos privados.

Enquanto aguardam um cenário de definição política, os negócios locais tentam manter o foco na agenda econômica desta quarta-feira, que tem como destaque o exterior. As atenções estão concentradas na ata do Federal Reserve (15h) referente à reunião de maio, quando os juros foram mantidos entre 0,75% e 1%. Mas a probabilidade dessa taxa subir já no encontro seguinte, em junho, gira em torno de 80%.

O documento pode, então, revelar as chances de mais um passo do Fed no processo de normalização do custo do empréstimo nos Estados Unidos. Tal movimento vai depender do grau de confiança do Banco Central norte-americano na situação atual e nas perspectivas para a inflação e a atividade no país, além da melhora gradual do nível de emprego. O quadro político nos Estados Unidos também pode ser mencionado.

Apesar da intenção dos adversários de Donald Trump em abrir um processo de impeachment contra o presidente norte-americano, os democratas são minoria no Congresso e poucos republicanos parecem dispostos em se opor a ele. Mas esse apoio pode ser testado hoje, em meio ao depoimento do ex-diretor do FBI James Comey.

As possíveis ligações entre a Casa Branca e a Rússia e as preocupações quanto a um possível atraso na implantação das políticas econômicas do governo Trump, inclusive os estímulos fiscais, pressionaram o dólar. Hoje, porém, a moeda norte-americana ganha força, na esteira da decisão da Moody's de rebaixar o rating da China.

Foi a primeira vez em quase 30 anos que a nota de risco de crédito soberano chinês sofreu piora, caindo mais de um degrau, sem escala, passando de Aa3 para A1. A perspectiva do rating passou de negativa para estável, mas o rebaixamento (downgrade) serviu de alerta para uma piora da dívida do país, em meio à desaceleração econômica.

Em reação, as bolsas de Xangai e de Hong Kong fecharam praticamente estáveis, com viés positivo, apagando os ganhos firmes até antes do anúncio. Porém, os metais básicos, como o minério de ferro e o níquel, e as moedas correlacionadas às commodities, como o dólar australiano, sentem maior pressão da notícia e têm perdas aceleradas. Já o petróleo avança.

No Ocidente, os índices futuros das bolsas de Nova York ensaiam ganhos, assim como as principais bolsas europeias, mas o downgrade chinês altera o apetite dos investidores, que passam a desconfiar da capacidade do crescimento econômico global, em meio ao alerta da Moody's sobre a segunda maior economia do mundo.

Ainda no calendário norte-americano, saem novos indicadores do setor imobiliário e também os estoques semanais de petróleo bruto e derivados no país. No Brasil, merecem atenção a sondagem da indústria e o relatório da dívida pública federal, ambos referentes ao mês de abril.


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