Traições da base e greve geral põem em risco planos do governo

27.04.2017

 

A aprovação da reforma trabalhista na Câmara ontem à noite pode até trazer um alívio aos mercados domésticos nesta quinta-feira, mas o placar da votação, com uma margem apertada de 296 votos a favor e 177 contra, tende a manter a desconfiança dos investidores em relação à reforma da Previdência. Com mais de 80 "traições" da base aliada, o governo não teria votos suficientes para avançar tal medida ao Senado.

 

O placar da votação de ontem era o fator mais observado pelos negócios locais e considerado como um termômetro para medir o apoio dos partidos governistas. O governo precisava apenas de maioria simples - metade dos presentes mais um, a partir de um quórum mínimo de 257 deputados - para aprovar a nova legislação trabalhista.

 

Mas para avançar a reforma da Previdência ao Senado são necessários 308 votos - 12 a mais que o obtido ontem - sendo que bastam 208 deputados contrários para inviabilizar a aprovação. Por isso, a aprovação da medida sobre as leis de trabalho, com uma boa maioria de votos, era fundamental para dar sobrevida às negociações na base aliada.

 

Na votação de ontem, PSB, PP, SD, PMDB e PR foram os aliados que mais se posicionaram contra a reforma, enquanto na oposição, houve apenas uma dissidência, o pedetista Carlos Eduardo Cadoca (PE), que "traiu" a recomendação partidária. Ao todo, 39 parlamentares faltaram à votação e considerando-se os 382 deputados de partidos aliados presentes na sessão, 86 (22,5%) votaram contra o governo.

 

Assim, o índice de fidelidade dos partidos aliados, que já superou 90% no ano passado, mantém a trajetória de queda, o que liga o sinal de alerta no Palácio do Planalto, em meio aos pedidos dos deputados para apoiar "só uma reforma". A votação de ontem era considerada um ensaio para a votação da reforma da Previdência, cujo parecer será apreciado na semana que vem, na comissão especial e a disputa em plenário está aberta.

 

O fato é que o governo Temer se engalfinha para aprovar as reformas trabalhista e previdenciária no Congresso como proposta para contornar o déficit fiscal. Enquanto isso, o governo Trump se dedicou a uma ampla reforma tributária, que irá reduzir a dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), por meio de três faixas de imposto de renda, nenhuma taxa alternativa nem tributo estadual.

 

O objetivo final, portanto, é o mesmo, os meios é que são outros. Assim, pode ficar difícil para o Palácio do Planalto justificar por que optou primeiro mudar as leis de trabalho e as regras para a aposentadoria, ao invés de agir na revisão do imposto de renda, transformando o tributo em progressivo, ou na taxação sobre grandes fortunas.

 

Tal estratégia adotada pelo presidente Michel Temer e a equipe econômica dos sonhos pode ser colocada em xeque na greve geral prometida para amanhã, em meio à adesão de diferentes categorias ao movimento, antes das tradicionais manifestações do 1º de Maio. Até por isso, o governo tem pressa.

 

Os principais aeroportos do país devem paralisar as atividades na véspera do fim de semana prolongado pelo feriado na segunda-feira. Professores, bancários e metroviários também aderiram à paralisação contra as reformas "que retiram direitos dos trabalhadores" e contra a terceirização da mão de obra.

 

Ao todo, mais de 30 categorias irão apoiar o movimento e muitas delas prometem parar em várias cidades, interrompendo setores de transporte, educação, saúde, segurança, indústria, serviços etc., nas esferas pública e privada. Essas classes estão conscientes de que dos mais de 100 pontos que compõem a reforma trabalhista uma em cada três proposta de mudança teve a autoria das associações empresariais que representam tais segmentos, como as confederações do Transporte (CNT), da Indústria (CNI), das Instituições Financeiras (CNF) e do Transporte de Cargas e Logísticas (NTC).

 

Portanto, se tais medidas ganharem "força de lei" serão as rotinas produtivas no mundo do trabalho que serão alteradas, As medidas também preveem restrições a ações trabalhistas. Por isso, três tribunais regionais do trabalho também aderiram à greve. Segundo o Ministério Público do Trabalho, a greve é um direito fundamental.

 

Na agenda econômica, a quinta-feira está repleta de divulgações, no Brasil e no exterior. Por aqui, saem o Índice Geral de Preços (IGP-M) de abril (8h) e a inflação ao produtor (IPP) em março (9h), além do resultado das contas do governo no mês passado (14h30). Na safra de balanços, destaque para os resultados de Bradesco e Vale.

 

Lá fora, o grande destaque é a reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), cuja decisão sobre a taxa de juros será divulgada às 8h45. A expectativa é de manutenção em zero, o que desloca as atenções para a coletiva de imprensa do presidente do BCE, Mario Draghi, às 9h30.

 

No evento, ele não deve sinalizar mudanças no programa de estímulo à região da moeda única via compra de ativos, previsto para durar até dezembro deste ano a doses mensais de 60 bilhões de euros. Também às 9h30, nos EUA, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país e as encomendas de bens duráveis em março. Às 11h, é a vez de novos indicadores sobre o setor imobiliário norte-americano.

 

À espera desses eventos, as principais bolsas europeias estão no vermelho, em meio à indefinição de Wall Street para o dia. Na Ásia, também não houve um rumo definido, com ganhos na China, mas queda em Tóquio, pela primeira vez em seis dias. O iene escorregou, após o BC japonês (BoJ) manter a política monetária inalterada.

 

O dólar, por sua vez, recua diante da sinalização de que o presidente do EUA, Donald Trump, pretende retirar o país do acordo comercial com o México e o Canadá (Nafta), por meio de um Ordem Executiva. Em direção oposta, o peso mexicano e o dólar canadense disparam, recuperando-se do tombo da véspera, após a Casa Branca afirmar que não irá permitir a retirada imediata dos EUA do bloco.    

 

O won sul-coreano, o dólar neozelandês e o rublo russo também avançam ante o dólar, mas a queda da moeda norte-americana não anima as commodities. O petróleo recua e é negociado nos menores níveis em um mês, ao passo que, entre os metais, o precioso ouro e o básico cobre também estão no vermelho.  

 

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