Bomba!

07.04.2017

 

Nem inflação no Brasil, nem emprego nos Estados Unidos. O ataque norte-americano na Síria rouba a cena dos mercados financeiros nesta sexta-feira, após a ordem de Donald Trump para lançar mais de 50 mísseis Tomahawk contra a base aérea do governo de Bashar al-Assad em uma retaliação ao ataque com armas químicas.

 

Em reação ao ataque, os índices futuros das bolsas de Nova York estão sob pressão, mas mostram melhora, ao passo que os preços do barril de petróleo dispararam, com o WTI subindo quase 2%, para a faixa de US$ 52. A ação militar que matou ao menos seis pessoas e feriu outras põe os investidores na defensiva, buscando proteção em ativos seguros, em um dia já carregado de indicadores e eventos econômicos relevantes.

 

O grande receio são outras decisões unilaterais que podem ser tomadas por Trump, por exemplo contra a Coreia do Norte, e os contra-ataques que tais ações podem ocasionar. Ainda mais, após o republicano ter passado toda a campanha presidencial dizendo que não iria se envolver em conflitos no Oriente Médio. Cresce, então, o clima de tensão geopolítica no mundo, que coloca em xeque as duas maiores economias do mundo, além da Rússia.

 

O presidente russo, Vladimir Putin, considerou o bombardeio dos EUA uma "agressão contra um estado soberano", baseada "em pretextos inventados". A Rússia é contra o ataque à Síria e tem o apoio da China. Aliás, o ataque norte-americano surpresa ocorreu enquanto Trump estava reunido com o presidente chinês, Xi Jinping, tratando de outro tema crucial: o programa nuclear norte-coreano. O encontro prossegue hoje - talvez em um clima menos amistoso.

 

Diante dessas preocupações, o rublo russo desaba, levando consigo outras moedas emergentes, como lira turca e o peso mexicano, ao passo que o rendimento (yield) dos títulos norte-americanos de 10 anos (T-note) recuam, em meio à alta dos preços dos papéis por causa da maior demanda por segurança. O ouro e a prata avançam, também por causa do movimento de proteção, diante do temor de que algo pior possa acontecer.

 

Ainda assim, há a possibilidade de que o ataque dos EUA contra os militares sírios seja "bastante cirúrgico", fazendo com que os mercados globais possam superar o fato e se recuperar. Assim, o foco dos investidores pode se voltar à agenda econômica do dia.

 

O destaque lá foram são os números sobre o mercado de trabalho no EUA, que podem reforçar as chances de altas menos espaçadas nos juros norte-americanos ao longo de 2017. A expectativa para o chamado payroll é de geração de 175 mil vagas em março, com a taxa de desemprego seguindo em 4,7%, indicando um quadro saudável. 

 

Ainda assim, qualquer número abaixo desse consenso não deve afastar de vez as chances de um novo aperto monetário pelo Federal Reserve neste semestre, já que o relatório deve ter sido afetado pela questão climática, que puxou para cima os dados de emprego nos EUA no início deste ano. Em fevereiro, as temperaturas mais amenas permitiram uma criação maior de vagas, superando as projeções na ocasião.

 

Os dados efetivos serão conhecidos às 9h30. Antes, às 9h, será divulgado o índice oficial de preços ao consumidor brasileiro (IPCA) no mês passado. O indicador deve perder força e subir 0,24% em relação à alta de 0,38% em fevereiro, reduzindo a taxa acumulada em 12 meses para 4,56%, de 4,76% no período até o mês anterior.

 

 Se confirmada a previsão, o dado mensal será o menor para o mês desde 2012 (+0,21%) e a taxa em 12 meses deve retroceder aos níveis de 2010, quando o IPCA no período até agosto foi de 4,49%, encostando de vez à meta de 4,5%, o que não acontecia há sete anos.

 

Os números devem pavimentar o caminho para uma queda mais acelerada da taxa básica de juros (Selic) neste mês. Assim, a instabilidade na política, no Brasil e no mundo, não deve impedir o mercado doméstico de comemorar as boas notícias vindas da economia, principalmente do lado da inflação.

 

A questão é que o cenário é tranquilizador apenas na combinação de queda dos preços e dos juros. O tema das reformas estruturais, sobretudo da Previdência, continua causando incômodo aos negócios locais, ainda mais após os recuos do presidente Michel Temer.

 

O placar da imprensa, que mostrou que a maioria dos 260 votos de deputados contrários às mudanças nas regras da aposentadoria vem da base aliada, evidenciou as dificuldades de aprovação na Câmara. Mais que isso, evidencia que alterações no texto original colocam em xeque a eficácia da medida para colocar as contas públicas em ordem.

 

Segundo o relator da reforma, Arthur Maia, as alterações autorizadas serão na regra de transição, na aposentadoria rural e em aposentadorias especiais, como professores e policiais. O único ponto que para o qual o governo parece inflexível é a fixação de uma idade mínima para aposentadoria, de 65 anos para homens e mulheres, que tem gerado controvérsias na ala feminina.

 

De qualquer forma, as mudanças em cinco pontos da proposta de reforma da Previdência vão reduzir em pelo menos 10% a economia que o governo projetava para os próximos dez anos nos gastos com a Previdência, ou cerca de R$ 70 bilhões, dificultando cobrir o rombo do INSS. O ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, principal articulador para a aprovação da proposta no Congresso, minimizou a queda.

 

Mas se a reforma desandar, isso tende a afetar o fluxo de recursos estrangeiros ao Brasil, impactando no dólar. Também podem ser revistas as expectativas para inflação e juros no país, com a primeira subindo mais e o segundo caindo menos.

 

Diante desse noticiário farto, no Brasil e no exterior, resta saber qual será a leitura dos mercados financeiros para o dia.

 

 

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