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Mercados voltam atenção aos BCs


O adiamento da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o processo contra a chapa eleita em 2014 já era a grande aposta dos mercados domésticos e serviu para melhorar a percepção do risco político no curto prazo. Com isso, o radar dos negócios se volta ao plano econômico, concentrando as atenções do dia nos bancos centrais.

Pegou de surpresa o anúncio feito ontem à noite pelo BC brasileiro, informando que errou na projeção para a inflação oficial (IPCA) neste e no próximo ano no âmbito do cenário de referência. A expectativa de alta em 2017 de 3,9% foi revisada para baixo, para +3,6%. Para 2018, a estimativa passou de +4% para +3,3%.

Essa revisão das estimativas no cenário que presume taxas de câmbio e de juros estáveis tende a agitar os mercados domésticos hoje. Afinal, se com a Selic a 12,25% e o dólar a R$ 3,28 a inflação ficará bem distante do centro da meta de inflação, de 4,5%, quanto mais comportados os preços podem ficar se o juro básico cair a 8,75% e o câmbio recuar a R$ 3,25, conforme prevê o chamado cenário de mercado?

No relatório de inflação (RTI) divulgado na semana passada, a autoridade monetária recomendou que se olhasse esse cenário de mercado, que tem como premissa as projeções dos analistas para a taxa Selic e para o dólar. A questão é ler nas entrelinhas o que o BC quis dizer, após afirmar a opção por uma "intensificação moderada" no ritmo de cortes dos juros, consolidando as apostas de queda de um ponto em abril.

No exterior, a comunicação do BC dos Estados Unidos (Federal Reserve) também merece atenção, neste dia de divulgação da ata da reunião de março, quando a taxa de juros norte-americana subiu pela primeira vez neste ano. No encontro do mês passado, o colegiado mostrou uma postura mais suave (“dovish”) e inclinado a promover apenas duas novas altas no custo do empréstimo até o fim de 2017.

Porém, os sinais contraditórios emitidos pelos integrantes com direito a voto ainda não descartam totalmente a possibilidade de mais ou menos apertos monetários ao longo do ano. Por isso, a ata será lida com lupa pelos investidores, em busca de pistas sobre os próximos passos e atentos aos argumentos que justificaram a elevação em 0,25 ponto percentual, para o intervalo de 0,75% a 1%.

O dólar mede forças ante os rivais e os índices futuros das bolsas de Nova York se enfraquecem, faltando poucas horas para a publicação do documento, às 15h. O petróleo estende os ganhos e é negociado acima de US$ 51 o barril antes dos estoques norte-americanos da commodity (11h30), enquanto o cobre avança. Na volta do pregão em Xangai, o otimismo com uma nova zona econômica na China embalou a alta de 1,5%, a maior desde agosto, animando as bolsas da região e influenciando no sinal na Europa.

Além da espera pela ata do Fed, o mercado também está no aguardo do encontro entre os presidentes dos EUA, Donal Trump, e da China, Xi Jinping. Os investidores querem medir a força política do republicano nas tratativas comerciais e geopolíticas com a segunda maior economia do mundo.

Até porque mais que a comunicação do Fed, o que pesa nos mercados internacionais é a falta de clareza da agenda econômica do governo Trump. A ausência de um plano bem definido para permitir corte de impostos e aumento de gastos públicos evita que se firme um cenário de juros consistentemente mais altos nos EUA.

Afinal, sem saber se a política fiscal expansionista irá mesmo ocorrer, não é intenção do Fed atrapalhar o cenário econômico positivo nos EUA. Ainda no calendário externo, saem os dados de março sobre a atividade no setor de serviços norte-americano, chinês, britânico e na zona do euro, além da geração de postos de trabalho no setor privado dos EUA.

A chamada pesquisa ADP (9h15) é tida como uma prévia dos dados oficiais sobre o mercado de trabalho nos EUA (payroll), na sexta-feira. É bom lembrar que uma melhora adicional no quadro do emprego no país pode intensificar a política monetária restritiva norte-americana – independente do conteúdo emblemático da ata do Fed hoje.

A importância de um ciclo mais ou menos intenso de alta dos juros nos EUA se dá por causa da atratividade pelos ativos emergentes, como do Brasil. Por enquanto, a trajetória de queda da inflação combinada com a atividade ainda fraca reforça a tendência de cortes na Selic e de valorização do real, por causa do diferencial pago pelos juros reais.

Porém, como o BC local ressaltou ainda no RTI, que a extensão do ciclo de flexibilização monetária depende também da inflação em 2019 e da taxa de juros estrutural, aos poucos, o foco dos investidores vai migrando para o encontro de maio. Nessa reunião, espera-se que a votação da reforma da Previdência na Câmara já tenha sido encaminhada, com a pauta avançando ao Senado.

Se até meados do mês que vem a reforma seguir sem a aprovação dos deputados e os ruídos vindos da base aliada cresceram, os ativos brasileiros devem começar a mostrar fraqueza. Ainda assim, se for aprovada, será importante acompanhar o placar da votação e, principalmente, o tamanho da desidratação do texto original.

No cenário-base dos mercados, as reformas passam com larga vantagem e sem grandes mudanças, o que permitiria uma nova rodada de valorização dos ativos brasileiros. O dólar, por exemplo, poderia cair abaixo de R$ 3,00. Até lá, tanto o câmbio quanto a Bovespa devem estancar o rali dos últimos meses.

O receio é de que o governo Temer fique ainda mais refém de negociações políticas para aprovar as importantes reformas no Congresso, considerada essencial para colocar as contas públicas do país em ordem. O mercado, então, fica cauteloso, mas ainda aposta que Temer fica até 2018 e avance com as medidas. A conferir.

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