A política dos mercados

21.03.2017

 

Já que a crise da carne não assustou os mercados domésticos, que seguem a estratégia do governo e tentam minimizar a questão, os negócios locais devem, então, se voltar ao ambiente externo. Em meio à agenda econômica novamente fraca hoje, que traz como destaques o balanço da Petrobras e discursos de dirigentes do Federal Reserve, os investidores ficam mais soltos para manter o apetite por risco.

 

Porém, como se já não bastasse a dificuldade do governo em aprovar as reformas estruturais, diante dos sinais de uma base aliada não tão coesa, as investigações da Justiça - seja na Carne Fraca, seja na Lava Jato - mostram ao investidor, estrangeiro principalmente, todo o risco que envolvem os cenários político e corporativo no Brasil. Tal percepção suplanta a confiança de que o país estaria saindo da recessão.

 

Ontem, vários países anunciaram restrições à importação da carne brasileira após a operação da Polícia Federal e apenas a Coreia do Sul voltou atrás, retomando a compra do produto. O governo insiste que os frigoríficos e servidores envolvidos no esquema representam um núcleo “diminuto”, que não pode prejudicar o setor alimentício e o agronegócio como um todo, camuflando os números para sustentar tal discurso.

 

Qualquer semelhança dessa estratégia em relação ao tom usado pelo governo para envolver a opinião pública na relevância da aprovação das reformas estruturais, não é mera coincidência. Apesar das mais de 160 emendas apresentadas à proposta sobre mudanças nas regras para a aposentadoria e diante da crescente contestação sobre as leis trabalhistas, o governo mantém o discurso de confiança da vitória.

 

Mais que isso, o Congresso tenta convencer a população de que o excesso de leis no Brasil tem gerado desempregados. Segundo o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, assim como existe um mito em relação à perda de direitos no âmbito da reforma da Previdência, há o mito de que a regulação trabalhista gera emprego.

 

Assim, a Casa deve aprovar o antigo projeto que regulamenta a terceirização da mão de obra de qualquer atividade de uma empresa, a fim de agilizar a tramitação. O texto, de 1998, foi aprovado pelo Senado em 2002 e corre em paralelo com a proposta de 2015, que ainda precisa ser apreciada pelos senadores.

 

Se a matéria resgatada por Maia for aprovada sem alterações, o texto seguirá para sanção do presidente Michel Temer. O projeto que legaliza a contratação de prestadoras de serviços para executarem também as atividades-fim de uma empresas - e não apenas serviços de apoio, como é hoje - pode não só comprometer os direitos trabalhistas, mas também permitir que empresas fechem as portas, deixando para trás um enorme passivo.

 

Na mesma linha, a equipe econômica usa uma estratégia parecida, ciente dos desafios à frente. Na divulgação do relatório de avaliação fiscal, amanhã, Ao invés de tratar diretamente da questão e assumir que o aumento de impostos está no radar, o governo irá apresentar o que é possível fazer em termos de corte de gastos.

 

Porém, há um limite – constitucional até – sobre o contingenciamento das despesas. E, caso o número traçado não seja o suficiente para cumprir a meta fiscal de 2017, por causa da arrecadação federal fraca, será, então, necessário elevar os tributos.

 

Por enquanto, essa tentativa semelhante ao "vai que cola" não incômoda os mercados. Mas a percepção é de que o Brasil está incrustado em uma rede de corrupção, com envolvimento em escândalos que parecem correr na veia dos poderes público e privado, de modo até natural. E por mais que tentem ser minimizados, os efeitos começam a fazer preço no custo produtivo do país.

 

Até porque ainda são desconhecidos o conteúdo e os impactos da “Lista de Janot” e das delações da Odebrecht na classe política. Aliás, uma semana depois de terem sido protocolados, o relator da Lava Jato, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, deve receber hoje os 83 pedidos para investigar políticos com foro privilegiado. Caberá a Fachin decidir sobre a abertura de inquérito.

 

Ainda assim, o ambiente externo favorável à tomada de risco dos países emergentes deve manter encoberta todas essas delicadas questões no Brasil. Os ativos de mercados emergentes são o grande destaque no exterior, com o Fed retomando o debate sobre um novo aumento na taxa de juros norte-americana.

 

O índice MSCI de mercados emergentes subiu pelo oitavo dia seguido hoje, diante dos ganhos nas bolsas e no petróleo, em meio às perdas do dólar. O sinal positivo prevalece em Wall Street e na Europa nesta manhã, sendo que o euro salta ao maior nível em um mês diante do esfriamento tensão política após o debate presidencial na França.

 

O movimento foi amparado por declarações ontem de que "não há pressa" em subir o custo do empréstimo nos Estados Unidos novamente, embora ainda possam haver duas, três ou quatro altas este ano. Hoje, mais três integrantes do Comitê do Fed discursam.

 

Por aqui, saem os resultados corporativos de Bradespar, antes da abertura, e da Petrobras, após o fechamento. A estatal petrolífera passa por uma reviravolta operacional, que tem alterado sua cultura gerencial, e deve continuar engordando o caixa.

 

 

 

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