Carne podre, política fraca

20.03.2017

 

A semana começa com os mercados domésticos cada vez mais com os pés no chão. Não só os ruídos vindos do ambiente político trazem cautela, mas também o desmantelamento de indústrias de peso da economia brasileira. E os investidores ainda tentam aferir se o impacto dessas notícias é pontual, como tenta fazer o governo, ou se tende a ser duradouro, gerando uma onda de correção nos preços dos ativos.

 

O presidente Michel Temer esteve reunido ontem com o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, para discutir a Operação Carne Fraca, que atingiu as maiores empresas nacionais do setor de alimentos. À noite, ele jantou em uma churrascaria com uma comitiva de embaixadores dos 33 países que mais importam carnes do Brasil, a fim de tranquilizá-los.

 

A repercussão internacional do esquema entre servidores e frigoríficos para liberar a comercialização de carnes sem condição de consumo ainda pode levar ao embargo do produto brasileiro por grandes importadores, agravando a frágil recuperação econômica. As consequências ao setor agropecuário e às exportações são grande temor do governo, que tenta minimizar o caso - ou mesmo encobri-lo, com apoio de parte da imprensa.

 

Mas investigação da Polícia Federal, a maior já realizada, mostra que a corrupção está no âmago da delicada situação atual do país e que tais atos estão longe de se restringirem apenas à Petrobras, evidenciando uma relação estreita entre poder público e empresas. Aliás, a Operação Lava Jato paralisou dois pilares da atividade - as indústrias de óleo e gás e de infraestrutura - e, agora, a Carne Fraca pode fazer o mesmo no ramo alimentício.

 

Nesse cenário, os ativos locais ficam mais baratos ao capital estrangeiro. Mas as incertezas quanto ao andamento das reformas estruturais no Congresso e ao impacto da "Lista de Janot" no governo e na base aliada ainda inibem o apetite pelo Brasil. Por ora, a visão positiva para o médio prazo continua, mas essa manutenção depende dos desdobramentos - em Brasília e nas exportações.

 

O maior receio é em relação à capacidade do governo em cumprir a meta fiscal deste ano, dando o primeiro passo para contornar as contas públicas. Nesse sentido, é grande a expectativa pelo relatório de avaliação fiscal, a ser divulgado na quarta-feira, que pode trazer alguma novidade sobre eventual alta de impostos ou fim de desonerações.

 

Na mesa de apostas, ganha força a especulação em torno de um aumento na contribuição (CIDE) sobre gasolina e diesel, que, se confirmado, trará impacto inflacionário à economia e pode prejudicar o desempenho financeiro da Petrobras. Aliás, a estatal petrolífera publica o balanço trimestral e do acumulado de 2016 na terça-feira, após o fechamento do mercado.

 

Contudo, a trajetória favorável da inflação tende a acomodar um eventual choque de preços via aumento de impostos. Talvez até por isso, o governo pode aproveitar esse bom momento para elevar os tributos. A prévia da leitura de março do índice oficial (IPCA-15), a ser anunciada na quarta-feira, deve reforçar este cenário inflacionário mais positivo.

 

Porém, fica a dúvida se o ciclo de cortes na taxa básica de juros (Selic) seguirá intenso e acelerado, no caso de uma revisão da carga tributária e, principalmente, diante da incerteza quanto ao real apoio à reforma da Previdência. O governo vai tentar vender a ideia de que a situação está sob controle, mas deve ceder na negociação das regras da aposentadoria, após as mais de 160 emendas à proposta. 

 

Hoje, as atenções se voltam para a Pesquisa Focus (8h25) do Banco Central junto ao mercado financeiro, que deve trazer mais mudança, para baixo, nas estimativas para as taxas de juros e de câmbio. Até sexta-feira, o calendário doméstico está mais fraco, mas traz como destaque a nota do setor externo e os dados da arrecadação federal.

 

No exterior, a agenda econômica está igualmente fraca, sem nenhum indicador relevante seja nos EUA, na Europa ou na Ásia. Assim, o foco se desloca para os discursos de dirigentes do Federal Reserve.

 

Os investidores buscaram pistas nas falas do colegiado para tentar calibrar quando deve ser o momento exato da próxima alta na taxa de juros norte-americana. Afinal, na última reunião, o Fed deixou claro que outros dois aumentos devem acontecer até o fim de 2017.

 

O grande destaque é o discurso da presidente do Fed, Janet Yellen, na quinta-feira. Hoje é a vez do presidente da distrital de Chicago, Charles Evans (14h10), que têm direito a voto.

 

Outros membros votantes discursam nos próximos dias e o tom de cada um deve realçar a disputa entre "pombos" ("doves") e falcões ("hawks") na condução da política monetária dos Estados Unidos, mas sem desconstruir o cenário de novos apertos no custo do empréstimo no país. À espera de um novo gatilho, os mercados internacionais fazem uma pausa no rali recente e reavaliam o cenário.

 

Os investidores ainda digerem o comunicado do G-20, que destacou a relevância das relações comerciais, mas omitiu um compromisso de resistir a todas as formas de protecionismo. Após os encontros realizados no fim de semana, na Alemanha, os líderes das 20 maiores economias do mundo quase não chegaram a um denominador comum para apresentar no texto, deixando dúvidas sobre se um comunicado final seria mesmo publicado.

 

Diante dessa falta de consenso sobre as práticas adotadas para a compra e venda de produtos nos mercados interno e externo, no Brasil e no mundo, os investidores refreiam o otimismo. O fôlego de alta do dólar perde força, assim como os ganhos acelerados entre as ações, dando sinais de que o rali após a eleição do presidente norte-americano, Donald Trump, se esvaiu.  

 

As bolsas europeias recuam nesta manhã, penalizadas pelo sinal negativo nos índices futuros em Wall Street. Na Ásia, apenas a China teve ganhos. O petróleo recua pelo nono dia em 11 sessões, mas as moedas de países emergentes avançam, com o won sul-coreano liderando a alta, na companhia no baht tailandês.

 

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