A Lista de Janot

15.03.2017

 

Os 83 pedidos feitos pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para investigar políticos que têm foro privilegiado atingem ao menos cinco ministros do governo Temer, os presidentes das duas Casas no Congresso e senadores importantes da base aliada, colocando em xeque o andamento das reformas. Esse assunto, aliás, é alvo de protesto hoje nas ruas do Brasil, o que paralisa as atividades de vários trabalhadores.

 

O grande temor era de que a chamada “Lista de Janot”, entregue ontem ao Supremo Tribunal Federal (STF), atingisse políticos da base aliada e do governo Temer. E a divulgação a conta-gotas dos nomes que fazem parte dos inquéritos solicitados amplia a tensão quanto a um possível atraso no cronograma de votação das medidas, redobrando a cautela nos mercados domésticos.

 

Além disso, permanece a expectativa pela possível quebra de sigilo das delações premiadas da Odebrecht, na esteira dos pedidos de Janot. A falta de sintonia nas declarações de executivos da Odebrecht amplia a sensação de que querem jogar tudo no ventilador. Para a PGR, grande parte dos 950 depoimentos devem vir a público, "considerando a necessidade de promover transparência".  

 

Por enquanto, o que se sabe é que os recém-empossados ministros Aloysio Nunes (Relações Exteriores) e Moreira Franco (Secretaria-Geral da Presidência) são alvos de investigação em esquemas de corrupção, juntamente com o braço-direito do presidente Michel Temer, o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil), que voltou de licença médica na última segunda-feira.

 

Também estão entre os nomes que já foram vazados os ministros Gilberto Kassab (Ciência e Tecnologia) e Bruno Araújo (Cidades), além dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Eunício Oliveira. Ainda na esfera Legislativa, serão investigados os senadores Edison Lobão, Romero Jucá e Renan Calheiros, do PMDB, e os tucanos Aécio Neves e José Serra.

 

Entre os pedidos para a primeira instância da Justiça, que pede a investigação de pessoas que não têm foro privilegiado, estão os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e os ex-ministros Antonio Palocci e Guido Mantega. É, portanto, o noticiário político voltando a fazer barulho nos mercados domésticos e podendo mudar o clima de euforia que prevalecia até o carnaval.

 

Em meio a toda essa tensão no país, os negócios locais também aguardam a decisão do Federal Reserve sobre a taxa de juros nos Estados Unidos. O anúncio será feito somente à tarde (15h), mas desde as primeiras horas desta quarta-feira trabalhadores no Brasil protestam contra as reformas previdenciária e trabalhista, o que deve elevar o nervosismo.  

 

A interrupção da circulação de metrô e ônibus na capital paulista muda a cara da maior cidade do país e eleva a resistência às propostas do governo Temer. O Dia Nacional de Luta e Mobilização pelos Direitos, como vem sendo chamado pelas centrais sindicais, acontece em várias regiões do país, sendo que os principais atos contra as mudanças nas regras de aposentadoria e na legislação trabalhista acontecem em São Paulo e Rio, ao longo do dia. Afinal, fica difícil convencer a população de que é preciso trabalhar mais, e com mais flexibilidade, em meio a tantos desvios de recursos e interesses escusos.

 

Desde ontem, os investidores já mostram maior tensão com a questão política, elevando a desconfiança quanto ao ajuste fiscal. Nesse sentido, qualquer sinalização mais dura (“hawkish”) por parte do Fed hoje pode disparar uma correção mais intensa nos ativos brasileiros, que já têm embutido no preço a aprovação dessas reformas. Lá fora, por enquanto, o dia é de recuperação, amparada pelo fim da sequência de perdas no petróleo.

 

Por aqui, a grande preocupação é exatamente com a votação da reforma da Previdência, tida como uma questão-chave para o reequilíbrio das contas públicas, já que a fixação de um teto para os gastos, reduzindo as despesas em itens essenciais como saúde e educação, era tido apenas como um primeiro passo. Porém, a objeção à proposta do Palácio do Planalto pela própria base aliada e o envolvimento da população e até da imprensa tradicional ao tema levou o governo a recuar.

 

O prazo inicial, de votação da matéria na Câmara agora em março, foi adiado para maio, no cenário mais otimista. Com isso, a votação no Senado fica para o segundo semestre de 2017, sendo que a expectativa era de que o assunto se esgotasse no Congresso em junho. O receio do governo é de que a questão previdenciária não seja votada até outubro, quando as eleições de 2018 entram de vez na agenda dos políticos, relegando qualquer outro assunto.

 

Somada a essa questão interna, está a cautela no cenário externo. Afinal, por mais que um aumento de 0,25 ponto porcentual nos juros norte-americanos (FFR) já esteja no preço dos ativos, há uma expectativa pelo teor do comunicado que acompanhará a decisão, bem como pelas projeções macroeconômicas, que poderão indicar o caminho futuro da taxa FFR.

 

Qualquer indício de que o Fed trabalha com mais do que três apertos monetários neste ano, ou mesmo qualquer sinalização de que o ritmo de alta pode ser mais intenso, a busca por proteção em ativos menos arriscados tende a aumentar. Também será importante aferir a visão do Fed sobre o impacto desse processo menos espaçado de aumento no custo do empréstimo sobre a economia norte-americana.

 

Mas os mercados internacionais, por enquanto, não temem qualquer grande mudança por parte do Banco Central dos EUA. O sinal positivo prevalece nos negócios no exterior, com os preços do petróleo dominando a cena. A queda nos estoques norte-americanos da commodity, reportada pelo instituto privado API, conduz a melhora, interrompendo seis dias de queda.

 

O movimento embala os índices futuros das bolsas de Nova York e as principais bolsas europeias, ao passo que o dólar perder terreno para as moedas rivais de países desenvolvidos e emergentes. O destaque fica com a libra esterlina, que retoma o fôlego de alta após as preocupações quanto à autorização para o início da saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit.  

 

Mas o dia promete bastante volatilidade. Nas mesas de operações, os agentes econômicos monitoram atentamente os vazamentos de mais nomes ou detalhes vindos da Lista de Janot, ao mesmo tempo em que acompanham as manifestações sociais. Os investidores também aguardam pistas que podem surgir da fala da presidente do Fed, Janet Yellen, em entrevista coletiva à imprensa a partir das 15h30.

 

Antes, pela manhã, saem dados sobre a inflação ao consumidor norte-americano e as vendas no varejo, ambos em fevereiro e às 9h30. No mesmo horário, será conhecido o índice de atividade industrial em Nova York em março. Às 11h, é a vez dos estoques das empresas em janeiro e do índice de confiança das construtoras neste mês. Por fim, às 11h30, saem os estoques semanais norte-americanos de petróleo e derivados.

 

No Brasil, serão conhecidos o primeiro IGP do mês, o IGP-10 (8h), que deve ganhar força em relação a fevereiro, e os números semanais do fluxo cambial (12h30). Os dados do BC sobre a entrada e a saída de dólares do país já devem refletir a retirada de mais de R$ 2 bilhões da renda variável doméstica nesses primeiros dias de março, reduzindo o superávit estrangeiro na Bolsa para menos de R$ 5 bilhões no ano.

 

 

 

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