Crises no governo pesam no mercado

21.11.2016

 

Como se já não bastasse a delicada situação dos Estados, que causa uma divergência entre o Palácio do Planalto e o Ministério da Fazenda em relação ao socorro financeiro, a saída do ministro da Cultura Marcelo Calero abriu uma nova frente de preocupação em Brasília, ao evidenciar a pressão exercida pelo secretário de governo, Geddel Vieira Lima, para aprovar a construção de um imóvel em Salvador. Esse novo episódio da crise política pode ser capaz de descolar os mercados domésticos do comportamento positivo das bolsas e commodities no exterior.   

 

Fora do governo Temer, Calero acusa Geddel de pressioná-lo em produzir um parecer técnico favorável aos interesses pessoais do secretário, que teria comprado um apartamento no edifício La Vue, um prédio de 30 andares, ao custo de R$ 2,5 milhões, com vista privilegiada para a Baía de Todos os Santos, localizado em uma área nobre na Ladeira da Barra. Trata-se de uma acusação que destaca as estratégias de atuação de um dos principais articuladores político do governo Temer, em meio às inúmeras denúncias de troca de favores e pagamento de propinas que vêm assolando o país há meses.

 

O presidente Michel Temer, aliás, usou as redes sociais durante o fim de semana para tecer comentários sobre diversos assuntos, exceto aqueles que realmente movimentam a capital federal e que podem deixar os nervos dos investidores à flor da pele. Hoje, ele deve tratar dessas questões internamente, na reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social - o chamado "Conselhão", a partir das 9h, que será seguida de um almoço, às 13h.

 

Em outro front, também pegou mal a mudança repentina na delação premiada do ex-presidente da Andrade Gutierrez, negando propina ao então vice-presidente Michel Temer, após a divulgação de um xeque nominal a ele no valor de R$ 1 milhão, que poderia anular a chapa eleita de 2014, no âmbito do TSE. O episódio mais se pareceu a uma fase da “Operação Abafa”, a fim de conter os indícios apontados pela Operação Lava Jato.

 

Lá fora, os investidores estão assimilando cada vez mais a vitória de Donald Trump na eleição norte-americana, dando a sensação de que “a ficha caiu” e ele será mesmo o próximo presidente dos Estados Unidos. Passado o choque inicial, os mercados internacionais voltam a se estabilizar, à espera da definição dos nomes que irão compor o governo Trump.

 

Para hoje, é esperado o anúncio da equipe econômica que fará a transição de governo na Casa Branca, com a nova administração se preparando para assumir o comando do país, no dia 20 de janeiro de 2017. As maiores especulações giram em torno de quem o republicano escolherá para os cargos de secretário do Tesouro e do Departamento do Comércio.

 

À espera de novidades, os índices futuros das bolsas de Nova York estão em ligeira alta, beneficiados pelo aumento dos preços do barril de petróleo, que volta a ser negociado acima de US$ 45. O otimismo por uma acordo entre os países do cartel da Opep, que se reúnem na semana que vem em Viena, sustenta a commodity, alimentando o apetite por risco nos demais ativos.

 

A exceção, porém, fica entre as moedas. O dólar segue ganhando terreno em relação aos rivais, diante da percepção de que as promessas de Trump em alavancar os investimentos em infraestrutura irá impulsionar a inflação nos EUA e acelerar o processo de aumento dos juros pelo Federal Reserve. A moeda norte-americana é negociada nos maiores níveis desde o início do ano, com destaque para as divisas asiáticas, como o iene japonês e o yuan chinês, que caiu ao menor valor em oito anos.

 

Esse fortalecimento do dólar inibe os metais básicos, que se retraem apesar da perspectiva de aumento da demanda por causa do projeto ambicioso de Trump. O precioso ouro, contudo, avança. Nas bolsas, o sinal positivo prevaleceu na Ásia, com a Bolsa de Tóquio entrando no mercado de alta (bull market), em meio à desvalorização da moeda local, ao passo que as principais bolsas europeias iniciam a semana no azul.

 

Na agenda econômica, o calendário norte-americano está esvaziado hoje e traz poucas divulgações relevantes nos próximos dias, tendo como destaque a ata da reunião de novembro do Federal Reserve, na quarta-feira. Um dia depois, os EUA celebram o feriado mais festivo do país, que comemora o Dia de Ação de Graças.

 

Os mercados norte-americanos estarão fechados na quinta-feira e na sexta-feira, Wall Street reabre, mas a liquidez é sempre reduzida, com os consumidores indo às compras na Black Friday. No Brasil, as atenções se voltam para a prévia da inflação oficial no país em novembro, na quarta-feira. Também são esperados os números de outubro sobre a arrecadação federal, o emprego com carteira assinada e as contas públicas.

 

Com o cenário externo de maior incerteza após a eleição de Trump, a percepção de urgência do ajuste fiscal no país aumentou, mas também há dúvidas em relação à evolução dessa pauta no Brasil. Afinal, com a roubalheira desvendada no Rio de Janeiro pelas investigações da Polícia Federal que atingem o partido do presidente Temer fica difícil convencer a população da necessidade do ajuste, sem a contraparte da esfera pública.

 

Mas não é apenas no Estado fluminense que as coisas estão complicadas. Muitas outras unidades da federação estão em situação parecida, sem conseguir pagar a folha ou manter serviços básicos. Ciente disso, o Palácio do Planalto agendou para amanhã uma reunião com os governadores, que contará ainda com a presença do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

 

Porém, Meirelles tem outro compromisso, no Senado, onde pretende discutir a votação da PEC do teto dos gastos. A expectativa é de que a proposta seja analisada, em primeiro turno, no fim deste mês. A votação final deve acontecer em 13 de dezembro.

 

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