Prisão de Cunha abala confiança, mesmo após corte do Copom


O tão esperado ciclo de cortes da taxa de juros no Brasil começou ontem de modo comedido, com uma redução de 0,25 ponto porcentual, para 14% ao ano, em uma decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom). Mas o tom duro ("hawkish") do Banco Central no comunicado, indicando que os próximos cortes estão condicionados a muitos fatores, pode não agradar aos investidores, que devem se mostrar mais na defensiva diante do risco de uma delação premiada de Eduardo Cunha.

A prisão preventiva do ex-deputado, no âmbito da Operação Lava Jato, pode ser um duro golpe ao governo Temer, em meio às especulações sobre a possibilidade de uma colaboração às investigações da Justiça, trazendo apreensão ao ambiente político. O advogado do ex-presidente da Câmara afirmou que tal acordo "não está no radar", o que pode prolongar a permanência de Cunha atrás das grades.

No governo, a tentativa é de se afastar do ocorrido com o peemedebista e mostrar maior resiliência, mantendo o foco nas articulações para garantir a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que fixa um teto para os gastos públicos em até 20 anos. O segundo turno da votação da matéria na Casa acontece na semana que vem, mas o avanço da pauta pode ficar comprometido diante da maior vulnerabilidade no front político, com muitos personagens expostos.

O próprio presidente Michel Temer antecipou em 12 horas a viagem de volta ao Brasil, vindo do Japão, e chega em Brasília já nesta manhã, indicando a pressa do governo para aprovar as propostas no Congresso. Contudo, por mais que o Palácio do Planalto insista em dizer que a decisão de retornar logo não tem relação com a prisão de Cunha, sabe-se que o sinal de alerta volta a ser acionado na capital federal, podendo abalar o governo e o ajuste fiscal.

Aliás, as incertezas quanto aos ajustes necessários na economia foram um dos fatores apontados ontem pelo Copom para justificar um redução mais suave no juro básico. Foi a primeira queda da Selic em quatro anos, interrompendo um longo período de estabilidade da taxa, que vinha sendo mantido em 14,25% desde julho do ano passado. Ainda assim, o Brasil segue como maior pagador de juro real do mundo, com uma taxa acima de 8%.

O mercado financeiro dava como certo o início do processo de afrouxamento monetário neste mês, mas tinha dúvidas quanto ao tamanho da queda. Também não havia um consenso em relação aos próximos passos do Banco Central, agora que a distensão dos juros começou. Mas a mensagem deixada pelo Comitê é de que quedas maiores da taxa básica, de 0,50 ponto ou mais, ou mesmo um ciclo mais longo de cortes dependem da "evolução favorável" de fatores.

No longo comunicado que se seguiu ao final da reunião de outubro, o Copom promoveu várias alterações, justificando a decisão de cortar 0,25 ponto diante da estabilização da atividade econômica para uma "possível retomada gradual" e do cenário "mais favorável que o esperado" da inflação recente. Contudo, o Banco Central ainda enxerga possíveis riscos, o que explica uma dose mais moderada de corte dos juros neste mês.

Para o Copom, além da necessidade de avança das reformas econômicas, evidenciam-se "sinais de pausa" no processo recente de desinflação. Dessa forma, o BC afirmou que avaliará "o ritmo e a magnitude" da flexibilização monetária ao longo do tempo, mas entende que a convergência da inflação para 4,5% em 2017 e em 2018 "é compatível" com um ciclo de cortes "moderado e gradual".

E o mercado de juros futuros deve reagir a esse recado explícito do Copom, com os investidores ajustando as apostas para o último encontro do BC neste ano, em novembro e precificando a extensão e intensidade do processo, ao longo do ano que vem. A ata da reunião deste mês, que sai na próxima terça-feira, pode trazer mais detalhes, mas o comunicado de ontem foi bastante claro.

Outra decisão de política monetária está no foco dos mercados financeiros hoje. Às 9h45, o Banco Central Europeu (BCE) anuncia a taxa de juros na zona do euro, que deve ser mantida em 0%. Porém, há dúvidas quanto à manutenção do prazo do programa de recompra mensal de bônus, previsto inicialmente até março de 2017.

Mais detalhes sobre esse afrouxamento quantitativo (QE) podem ser dados durante a coletiva de imprensa do presidente do BCE, Mario Draghi, a partir das 10h30. O receio do mercado é de que a autoridade monetária reduza o período de extensão da operação, o que iria na contramão da adoção de estímulos sem precedentes ventilados por Draghi meses atrás.

Do outro lado do Atlântico Norte, o calendário norte-americano traz, às 10h30, os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos nos Estados Unidos e o índice de atividade na região da Filadélfia em outubro. Às 12h, é a vez das vendas de imóveis existentes e também dos indicadores antecedentes, ambos referentes a setembro.

À espera desses eventos, as principais bolsas europeias oscilam entre margens estreitas, sem um rumo definido, ao passo que os índices futuros das bolsas de Nova York ensaia ganhos, já reagindo ao terceiro debate entre os candidatos à Casa Branca. Pesquisa da CNN mostra que para 52% dos telespectadores Hillary Clinton venceu o último confronto contra Donald Trump, antes das eleições. O sinal positivo também prevaleceu na Ásia.

Entre as moedas, o peso mexicano avança ante o dólar e testa o maior nível em seis semanas, mantendo a tendência de fortalecimento toda vez que reduzem as chances de vitória do republicano no pleito de novembro. O dólar australiano também se aprecia, após inesperados números positivos sobre o mercado de trabalho no país. O euro, por sua vez, é negociado no menor nível desde julho.

Ontem, no Brasil, a Bovespa fechou em queda, após renovar as máximas do ano por dois pregões seguidos e tocar o nível dos 64 mil pontos durante a sessão, o que não era alcançado desde 2012. Já o dólar recuou pelo segundo pregão consecutivo, ficando abaixo de R$ 3,17, sob a influência do cenário internacional e a expectativa de ingresso de recursos estrangeiros no país.

Hoje, além do ambiente externo, os negócios locais deve ser impactados pelo noticiário doméstico. Na agenda local, sai apenas o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). O indicador deve seguir em território negativo, apontando queda de 1% em agosto em relação a julho. Na comparação com um ano antes, o recuo deve ser de 3%. O desempenho reflete, em grande parte, o forte declínio da indústria no período, reforçando que a recuperação da economia ainda é frágil e titubeante.

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