Mercados por um triz

13.10.2016

 

Foi por um triz. A ata do Federal Reserve mostrou que a decisão de manter a taxa de juros nos Estados Unidos entre 0,25% e 0,50% por 7 votos a 3 foi feita por um banco central ainda mais dividido do que sugeria apenas o placar da votação, com vários integrantes dizendo que um aperto monetário no país é necessário "relativamente em breve". Mas a notícia que pode pesar hoje veio da China, com dados fracos da balança comercial.

 

Os mercados financeiros ainda ecoam nesta quinta-feira as palavras do encontro de setembro do Fed, divulgada ontem, na primeira reação dos negócios na Ásia e na Europa ao documento, assim como também no Brasil, por causa do feriado ontem. Ao tom mais duro ("hawkish") da ata soma-se a inesperada queda de 10% nas exportações chinesas em setembro, no maior tombo desde fevereiro, o que mina a confiança na economia global.

 

Em reação, os índices futuros das bolsas de Nova York têm caem de modo acelerado, na faixa de 0,70%, o que embute perdas de mais de 1% nas praças europeias, após o forte recuo das bolsas asiáticas. A Bolsa de Xangai, contudo, fechou em leve alta de 0,1%, apesar da queda do superávit comercial do país para US$ 42 bilhões, resultado também da baixa de 1,9% nas importações na comparação com um ano antes e em termos dolarizados.

 

Em yuan, as exportações da China caíram 5,6% no mês passado, em base anual, mas as importações subiram 2,2%. Esses números adicionam pressão à moeda chinesa, que já é negociada perto das mínimas em seis anos, na faixa de US$ 6,70, mas ilustram, principalmente, a falta de brilho nas relações comerciais entre os países e uma significativa redução nos volumes transacionados, refletindo a baixa demanda no mundo e elevando as preocupações quanto ao crescimento econômico global.

 

Como resultado, o grande destaque do dia é o dólar. A moeda norte-americana recebe suporte da possibilidade crescente de aumento do custo do empréstimo nos EUA ainda neste ano e ganha terreno ante os rivais, sobretudos as divisas emergentes. O movimento alimenta uma busca por ativos seguros e reduz o rendimento (yield) dos títulos do país (Treasuries) de dois anos, com o preço negociado no maior nível em duas semanas.

 

O comportamento desses ativos pesa no petróleo, cujo barril do WTI volta a ficar abaixo de US$ 50. Os metais básicos também estão no vermelho, diante dos sinais renovados de desaceleração econômica na China. No fim do dia, o gigante emergente volta à cena e anuncia os índices de preços ao consumidor (CPI) e ao produtor (PPI) no mês passado.

 

Em relação ao Fed, as chances maiores, de 66%, são de que uma nova alta na taxa dos Fed Funds (FFR) ocorrerá apenas em dezembro, um ano após o fim da era de juro zero nos EUA, com o BC dos EUA mantendo o ritmo gradual no processo de normalização dos juros. O próximo encontro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) acontece no início de novembro, às vésperas das eleições presidenciais do país, no dia 8.

 

O fator-chave para a decisão do Fed continua sendo o mercado de trabalho. Os três membros votantes dissidentes acreditam que a condição do emprego nos EUA já está apertada e manter as taxas de juros em níveis baixos resulta em um taxa de desemprego artificialmente baixa, podendo demandar um ciclo de aperto mais agressivo à frente.

 

Por outro lado, a maioria ainda vê espaço para geração de vagas e deixar os juros onde estão pode atrair mais pessoais à força de trabalho. Hoje, essa visão e seu efeito nas decisões de juros poderá ser ampliada através dos discursos dos presidentes das distritais do Fed na Filadélfia e em Mineapolis, Patrick Harker e Neel Kashkari.

 

Nenhum dos dois tem direito a voto no Fomc neste ano – mas terão no ano que vem, quando o processo de alta dos juros pode ganhar força. Ainda nos EUA, às 9h30 saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país e o índice de preços de produtos importados em setembro. Depois, às 11h30, é a vez dos estoques semanais norte-americanos de petróleo brutos e derivados.

 

No Brasil, a agenda econômica está novamente fraca e traz apenas os números semanais do fluxo cambial (12h30). Entre os eventos de relevo, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, retorno de viagem aos Estados Unidos, onde deixou aberta a janela para investimentos estrangeiros na infraestrutura do país.

 

Mas, para atrair o ingresso do capital externo, é necessário ter juros básicos mais baixos, desonerando o custo dos aportes produtivos. E esse deve ser o tema do encontro de Meirelles com o presidente do BC, Ilan Goldfajn, hoje, às 13h. Por ora, a expectativa dos investidores é de que o ciclo de cortes na taxa Selic começará na próxima semana, com uma dose singela de 0,25 ponto porcentual.

 

Já o presidente Michel Temer se prepara para uma viagem à Ásia, a partir de amanhã. Ele participará de uma cúpula dos BRICS na Índia e, em seguida, embarcará para o Japão, na primeira ida de um chefe de Estado brasileiro ao país asiático em 11 anos. Na volta, Temer vai tratar do envio da proposta da Reforma da Previdência ao Congresso.

 

Espera-se que, antes disso, a Câmara já tenha recolocado na pauta o projeto sobre a repatriação de bens e recursos mantidos no exterior sem terem sido declarados à Receita Federal. O texto foi retirado da votação na última terça-feira pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia, em meio à recriminações e acusações, gerando uma falta de acordo. Se aprovada, o governo federal deve arrecadar entre R$ 60 bilhões e R$ 80 bilhões.

 

 

 

 

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