Dilma cai e juro fica estável

04.09.2016

 

O cenário político continuou dominando as atenções no Brasil em agosto, enquanto no exterior o foco esteve voltado à condução da política monetária nos Estados Unidos. Mas enquanto o processo de impeachment da agora ex-presidente Dilma Rousseff era tido como “favas contadas”, lá fora o quase impossível aperto nos juros norte-americanos neste ano perdeu força.

 

A discussão, em verdade, passou a ser sobre quando o Federal Reserve irá voltar a subir a taxa – se em setembro, em novembro e/ou em dezembro. As apostas ganharam vigor após o vice-presidente do Fed, Stanley Fischer, decifrar a mensagem deixada pela presidente do Banco Central dos EUA, Janet Yellen, durante o tradicional simpósio econômico em Jackson Hole.

 

No discurso, ela disse que o cenário para aumentar o custo do empréstimo nos EUA se fortaleceu e isso, segundo Fischer, significa que não só pode haver uma nova alta no juro norte-americano já em setembro, mas também mais de um aperto antes do fim de 2016. Tudo vai depender dos números sobre o mercado de trabalho no país, que vem dando cada vez sinais mais firmes de caminhar para a situação de pleno emprego.

 

Enquanto lá fora o debate em relação ao Fed ficou em voga, no Brasil os investidores passaram a se preocupar mais com o cenário pós-impeachment. Com o afastamento definitivo da presidente eleita por 54,5 milhões de votos em 2014 pela decisão de 61 senadores, começa uma nova fase do governo Temer.

 

Porém, as idas e vindas do empossado presidente Michel Temer deixam o mercado doméstico ressabiado com as ações do governo não condizentes com a proposta de controle de gastos. E o primeiro a desembarcar da gestão-tampão do PMDB, até 2018, pode ser o PSDB, pois a relação já vem acumulando desgaste, em meio à acusação dos tucanos de que Temer e a legenda dele estão fazendo um “jogo duplo”, prometendo austeridade, mas praticando benesses.

 

A torneira aberta para reajustes salariais ao funcionalismo público e as emendas na renegociação da dívida dos Estados, entre outras propostas, elevou as dúvidas em relação à eficácia do ajuste fiscal prometido. Mais que isso, o próprio mercado está ciente de que é frágil a hipótese de que o governo irá entregar resultados fiscais neutros ou positivos apenas cortando as despesas – o que deixa em aberto a chance de lançar mão de novos impostos.

 

Após a decisão do Senado de absolver Dilma da perda dos direitos políticos por oito anos, evidenciou-se um racha na base aliada e não basta uma fala mais dura de Temer para garantir o apoio de deputados e senadores. Ao contrário, os parlamentares devem apresentar a conta do apoio dado durante o período de interinidade e esse crédito será fundamental para avançar medidas que ainda estão pendentes no Congresso. Entre elas, a proposta (PEC) do teto para os gastos corrigidos pela inflação por até 20 anos.

 

Os agentes econômicos contam com uma melhora das contas públicas, pois o Banco Central condicionou o início do ciclo de cortes no juro básico a uma política fiscal mais austera, entre outros fatores relacionados à inflação. Sem esse rigor fiscal, os investidores ficam menos otimistas quanto à possibilidade de redução da taxa Selic ainda em 2016, mas o BC alimentou certa esperança neste mês, ao deixar de falar que “não há espaço para flexibilização da política monetária”.

 

A questão é que se o Comitê de Política Monetária (Copom) aguarda uma melhora no cenário doméstico para justificar um início do ciclo de afrouxamento, o ambiente externo pode jogar contra essa premissa. Afinal, o Fed parece estar cada vez mais convicto da necessidade de subir o juro norte-americano em breve.

 

Nesse ambiente de incertezas locais e riscos externos, o dólar já mostra resistência para se afastar muito da marca de R$ 3,25. Já a Bovespa encurtou o fôlego de alta em agosto, fechando o mês com valorização pela terceira vez seguida, mas de apenas 1%, e sem a ajuda do capital externo, que interrompeu cinco meses consecutivos de ingresso líquido de recursos e fechou agosto no vermelho.

 

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