Esperando Yellen


Na véspera do discurso da presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, os mercados financeiros redobram a cautela e assumem posições mais defensivas, à espera de pistas sobre a chance real de um aumento na taxa de juros norte-americana antes do fim do ano. Esse sentimento vindo do exterior deve ser potencializado no Brasil, em meio às incertezas com a pauta fiscal, neste primeiro dia do julgamento final de Dilma Rousseff.

O processo de impeachment da presidente afastada até que poderia dar algum ânimo aos mercados domésticos, mas o movimento lateral dos negócios no exterior tende a impedir qualquer rali local. Ao mesmo tempo, as notícias vindas de Brasília não devem estimular os investidores. Ao contrário.

O fato de aprovação da Desvinculação das Receitas da União (DRU) ontem, após votação relâmpago no Senado, ter sido condicionada ao reajuste salarial para defensores públicos deve manter o mau humor dos mercados domésticos com o ajuste fiscal em curso que mais tem concedido benefícios ao funcionalismo do que apertado os cintos. Há hoje mais de 600 defensores públicos da União e o impacto orçamentário neste e no próximo ano supera R$ 70 milhões, chegando a R$ 120 milhões em 2018.

O problema é que os investidores já miram o que será do país após o impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. O processo de cassação dela já está “no preço” dos ativos. Mas para a Bovespa andar adiante e o real ficar ainda mais forte, a questão é o que vem depois do impeachment.

E, para isso, conta-se com uma melhora das contas públicas. Esse sentimento se dá porque o Banco Central condicionou o início do ciclo de cortes no juro básico a uma política fiscal mais dura, entre outros fatores, deixando os investidores menos otimistas quanto à possibilidade de redução da taxa Selic ainda em 2016.

Fala-se que a lua de mel com o governo já tem data para acabar. E é exatamente quando o presidente Michel Temer deixa a interinidade e passa a ser definitivo. Aí, começa um cabo de guerra. De um lado, o mercado irá cobrar maior austeridade e rigor fiscal por parte de Temer e do núcleo político do governo, com um discurso mais alinhado ao da equipe econômica e sem concessões às demandas do funcionalismo e dos Três Poderes.

De outro, os deputados e senadores irão apresentar a conta do apoio dado durante o período interino e esse crédito será fundamental para avançar as medidas que ainda estão pendentes no Congresso. Entre elas, a renegociação da dívida dos Estados e a proposta (PEC) do teto para os gastos.

Enquanto digerem esse noticiário vindo de Brasília, os investidores monitoram o ambiente externo, onde o dólar perde fôlego para seguir em frente e não consegue firmar uma direção única em relação aos rivais. Para o Goldman Sachs, a libra esterlina, o iene japonês e o dólar neozelandês ("kiwi") são as moedas mais vulneráveis a qualquer potencial surpresa vinda de Yellen.

Já o petróleo é negociado no nível mais baixo em uma semana, após o inesperado aumento nos estoques norte-americanos da commodity. Os metais básicos também recuam, com destaque para o recuo do minério de ferro, o que pesa nas ações de mineradoras na Europa. Por lá, a Bolsa alemã lidera as perdas e cai mais de 1%, após o tombo do índice Ifo de sentimento econômico, a 106,2 em agosto, de 108,3 em julho, contrariando a previsão de alta a 108,5.

Na Ásia, o desempenho das bolsas foi misto, com Xangai cedendo 0,6% diante das preocupações de que Pequim irá agir para conter movimentos especulativos. Já os índices futuros das bolsas de Nova York estão em baixa, com os investidores adotando o modo de "esperar para ver", antes do discurso de Yellen, amanhã, durante o simpósio econômico em Jackson Hole (EUA).

O mercado espera encontrar, na fala de Yellen, indícios sobre quando se pode esperar um novo aperto monetário nos Estados Unidos e quão agressivo deve ser o plano de voo do Fed no processo de normalização da taxa de juros. A expectativa é de que ela corrobore os discursos recentes de outros diretores do Fed, de que não se pode descartar um aperto monetário já em setembro.

E essa declaração, se pronunciada, irá atingir em cheio os ativos globais, desestabilizando os mercados pelo mundo. Contudo, Yellen também pode se esquivar de prover todo os sinais que os investidores aguardam, deixando simplesmente a porta aberta em relação ao próximo passo do Fed, sem assumir qualquer compromisso.

Com isso, os mercados globais devem ficar hoje em compasso de espera, diante de um cada vez mais provável aumento no custo do empréstimo nos EUA em 2016. Esse movimento tende a diminuir o apetite pelo risco, como bolsas e moedas emergentes, e a atrair recursos para a segurança dos títulos norte-americanos (Treasuries), beneficiando o dólar.

A agenda econômica do dia traz uma nova sondagem, desta vez sobre o comércio (8h), a nota do Banco Central sobre as operações de crédito (10h30) em julho e o saldo do emprego com carteira assinada (Caged), às 16h. No EUA, saem as encomendas de bens duráveis no mês passado e os pedidos semanais de auxílio-desemprego, ambos às 9h30, além da prévia do índice de atividade nos setores industrial e de serviços (11h30).


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