Fed dá sinal verde aos mercados

18.08.2016

 

Os mercados financeiros recompõem o fôlego e respiram aliviados nesta quinta-feira, após a ata do Federal Reserve, ontem, abafar a possibilidade de um aumento iminente na taxa de juros dos Estados Unidos. O dólar volta a perder terreno para os rivais, ao passo que o petróleo avança e as bolsas se recuperam, após o tom no documento do Banco Central norte-americano não ter sido tão duro (“hawkish”) quanto o esperado.

 

De um modo geral, a ata da reunião de julho do Fed mostrou um banco central ainda dividido em relação ao momento exato em que deve ocorrer uma nova alta nos juros norte-americanos, mas disposto em manter as opções em aberto. Para o mercado, a probabilidade maior de aperto segue na reunião de dezembro, embora as chances tenham voltado a ficar abaixo de 50%.

 

No documento, alguns diretores avaliaram ser necessário aguardar novos dados econômicos antes de elevar a taxa, buscando maior confiança de que a inflação nos EUA irá se aproximar do alvo de 2%. Contudo, outros membros veem como apropriado um aumento no juro, já que o mercado de trabalho aproxima-se da condição de pleno emprego, ao mesmo tempo em que diminuíram os riscos de curto prazo à economia, como os efeitos do chamado Brexit.

 

Tomados em conjunto, esses pontos na ata sugerem que um aumento do juro é uma possibilidade real, mas o Fed não irá se comprometer com qualquer passo adicional no processo de normalização monetária até que haja um consenso mais forte no Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) em relação ao crescimento, ao emprego e à inflação nos EUA. E essa mensagem abre espaço para uma volta do apetite por risco.

 

Os investidores seguem apostando que os principais BCs do mundo vão manter uma política suave ("dovish") em meio ao crescimento econômico desigual. Como resultado, as ações e moedas de países emergentes são o destino dessa liquidez de recursos abundante.

 

O índice MSCI de mercados emergentes avança hoje, embalado pelas altas nas bolsas de Hong Kong, Indonésia, Filipinas e Tailândia. Em Xangai, contudo, houve queda de 0,2%. Nas moedas, o dólar australiano saltou ante o xará norte-americano, embalado ainda por números melhores que o esperado sobre o emprego na Austrália. A moeda dos EUA é negociada nos níveis mais baixos em três meses ante os principais rivais, sendo que o iene japonês ganhou força para além da barreira de 100 ienes por dólar.

 

Nas commodities, o petróleo WTI avança pelo sexto dia seguido, na sequência mais longa de valorização em mais de um ano, ao passo que o ouro também sobe. Entre as bolsas, os índices futuros em Nova York estão no azul, o que anima os negócios na Europa, onde as ações de mineradoras e petrolíferas são destaque de alta.

 

Apesar do tom cauteloso na ata de julho do Fed contra qualquer decisão precipitada de aumento do juro nos EUA, os investidores estarão atentos à fala do diretor da distrital de Nova York, William Dudley. Na terça-feira, ele trouxe o debate sobre um aperto monetário de volta ao radar dos mercados e hoje suas declarações podem voltar a pesar. O presidente da regional de São Francisco, John Williams, também discursa hoje.

 

O próximo encontro do Fomc está marcado para os dias 20 e 21 de setembro, que será seguido de uma entrevista coletiva da presidente do Fed, Janet Yellen. Depois, haverá outras duas reuniões, em novembro e em dezembro. Antes desses eventos, Yellen participa, na sexta-feira da semana que vem do simpósio econômico em Jackson Hole (Wyoming). 

 

Na agenda econômica de hoje, outra ata, desta vez do Banco Central Europeu (BCE) chama a atenção. O documento será publicado às 8h30 e pode trazer pistas sobre se a autoridade monetária da zona do euro pretende lançar estímulos sem precedentes em breve para impulsionar a economia.

 

A leitura final sobre os preços ao consumidor (CPI) na região da moeda única no mês passado também tende a calibrar essas apostas. Já nos EUA, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego e a atividade na Filadélfia neste mês, ambos às 9h30, além dos indicadores antecedentes em julho (11h).

 

No Brasil, o calendário está novamente esvaziado, o que mantém as atenções no noticiário político. Os investidores refazem as contas para contemplar a melhora da estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2017, de uma expansão de 1,2% para um crescimento de 1,6%.

 

Apesar da ausência de estímulos de curto prazo para impulsionar a atividade, com a equipe econômica mais focada em medidas fiscais, o Ministério da Fazenda avalia que o progresso de indicadores econômicos domésticos embasa essa previsão de um PIB mais robusto no ano que vem. Aliás, esses indícios apontam que a economia brasileira será muito melhor neste segundo semestre em relação ao observado nos seis primeiros meses de 2016.

 

Contudo, fica o “recado velado” do ministro Henrique Meirelles, de que se o PIB não crescer mais do que 1,5% no ano que vem haverá aumento da carga tributária no país. No próximo dia 31, Meirelles vai ao Congresso falar sobre um possível – e cada vez mais provável – aumento e/ou criação de impostos.

 

Mais ou menos na mesma época, deve ser definido o destino da presidente afastada Dilma Rousseff. Será, portanto, o governo interino passando a ser definitivo até 2018 e começando a apresentar sua agenda pós-impeachment.

 

Ontem, o ainda presidente em exercício Michel Temer afirmou à cúpula do PSDB estar preparado para uma "agenda ousada e corajosa" que dará início a um "novo tempo" da sua gestão. Segundo o presidente nacional tucano, Aécio Neves, será uma agenda "clara", neutralizando os "sinais ambíguos" que vêm sendo emitidos por Temer.

 

 

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