Congresso: cada Casa, um caso

10.08.2016

 

Os 59 votos obtidos no plenário do Senado para avançar o impeachment de Dilma Rousseff à etapa final do julgamento encosta no “número mágico” de 60, almejado pelo governo interino para encerrar a questão. Mas o placar favorável à cassação do mandato da presidente eleita não deve animar tanto os mercados domésticos, diante da derrota sofrida por Michel Temer na votação da dívida dos Estados, na Câmara, em um sinal de que ele terá de continuar cedendo às demandas políticas e manter o viés fiscal expansionista.

 

Os deputados adiaram para hoje, a partir das 10h, a votação de quatro destaques do projeto de lei de renegociação das dívidas dos Estados com a União. Depois de quase 9 horas de sessão, a supressão de última hora de uma contrapartida importantes no projeto, que trata da proibição dos reajustes salariais ao funcionalismo público por dois anos, foi um recuo sério, lançando dúvidas sobre o apoio da base aliada às medidas do ajuste fiscal.  

 

Afinal, o impeachment de Dilma já é dado como “favas contadas” no mercado financeiro, e a vitória larga entre os senadores ontem, por 59 votos a 21, era apenas uma das medidas de força de Temer no Congresso, principalmente após os vazamentos da delação premiada do empresário Marcelo Odebrecht. Apesar de a saída dela da Presidência estar praticamente sacramentada, no fim deste mês, o não andamento da pauta fiscal pode trazer desconforto aos negócios locais hoje.

 

Mesmo com os esforços do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que alterou o texto da proposta para viabilizar a votação, o apoio de deputados à exclusão da restrição de aumentos reais aos servidores estaduais pressionou o governo Temer a recuar. Assim, em troca do alongamento de 20 anos no prazo para pagamento das dívidas, o que terá um impacto de R$ 50 bilhões nas contas públicas até 2018, ficou apenas a contrapartida de limitar o crescimento das despesas à inflação.

 

O texto ainda precisa ser analisado no Senado. Também ontem, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), na Câmara, foi aprovada, por 33 votos a 18, a admissibilidade da proposta de emenda constitucional (PEC), encaminhada pelo governo e que institui um teto para os gastos públicos por até 20 anos. Trata-se do primeiro passo da principal medida de ajuste fiscal, neste primeiro momento. A PEC ainda terá de passar por uma comissão especial e, depois, por duas votações no plenário da Câmara. Depois, vai ao Senado.

 

Diante desse noticiário político, a agenda doméstica deve ficar em segundo plano. O destaque do dia é a inflação oficial ao consumidor brasileiro, medida pelo IPCA, que vem apresentando um comportamento errático desde o início do ano. Após perder força ao final do primeiro trimestre, os preços no varejo ganharam tração até meados de 2016, quando, então, voltaram a desacelerar.

 

A estimativa é de que o IPCA comece o segundo semestre novamente em aceleração, subindo 0,45% em julho, ante alta de 0,35% em junho. Ainda assim, o índice acumulado em 12 meses deve cair a 8,68%, seguindo abaixo dos dois dígitos pelo quinto mês consecutivo. Os números efetivos serão divulgados às 9h.

 

No mesmo horário, saem os dados regionais da produção industrial em junho. Antes, às 8h, sai a primeira prévia de agosto do IGP-M. Logo cedo, a Fipe informou que seu IPC iniciou o mês em desaceleração, passando de +0,35% ao final de julho para +0,24% na primeira prévia de agosto. Na safra de balanços, destaque para o resultado trimestral de Gerdau, antes da abertura dos negócios, e de Cosan e JBS, após o fechamento do pregão.

 

No exterior, o calendário está mais fraco e tem como destaque os estoques semanais norte-americanos de petróleo bruto e derivados (11h30), que tendem a seguir elevados, diante do aumento das sondas de perfuração no país e da estimativa de aumento da produção no ano que vem. À espera do dado, o barril da commodity negociada em Nova York cai ao redor de 1%, cotado na faixa de US$ 42, após os dados do API mostrarem um aumento dos estoques de petróleo nos Estados Unidos em pouco mais de 2 milhões na semana passada.

 

Também merece atenção o relatório JOLTS sobre a abertura de vagas de emprego nos Estados Unidos (11h). O documento é acompanhado de perto pela presidente do Federal Reserve, Janet Yellen, por ser considerado uma medida mais ampla da evolução das condições do mercado de trabalho no país, e pode renovar as apostas em relação aos próximos passos na condução da política monetária.

 

Por ora, prevalece a leitura de que, por mais que os EUA estejam próximos à situação de pleno emprego, a ausência de pressões inflacionárias – em especial, por causa do baixo preço do barril de petróleo - tende a adiar uma nova alta dos juros pelo Fed. A aposta de aperto em dezembro segue abaixo de 50%, superando este patamar apenas no encontro de março de 2017.

 

Essa possibilidade de que o Fed será lento no processo de aperto monetário enfraquece o dólar no exterior e tenta animar os índices futuros das bolsas de Nova York. Contudo, as bolsas europeias interrompem uma sequência de cinco dias seguidos de alta, ao passo que a maioria das bolsas na Ásia caiu.

 

As moedas de países emergentes e correlacionadas às commodities são negociadas nos maiores níveis desde julho de 2015, diante do otimismo de que os principais bancos centrais irão manter a política suave ("dovish") e até ampliar os estímulos monetários, em meio ao crescimento econômico desigual no mundo. Ontem, o dólar fechou na menor cotação em 13 meses, cotado abaixo de R$ 3,15, enquanto a Bovespa ficou praticamente estável, pelo segundo dia seguido. Hoje, esses movimentos serão testados pelo noticiário político.

 

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