Helicóptero do dinheiro

21.07.2016

 

Os bancos centrais não estão dispostos em adotar a qualquer preço a ideia do helicóptero do dinheiro, tida como uma alternativa aos estímulos monetários quando as taxas de juros estão em zero ou abaixo disso e a economia segue frágil. Hoje, o BC do Japão (BoJ) dispensou essa possibilidade, que se tornou popular nos anos 70, o que resgatou uma aversão ao risco pelo mundo, deprimindo os mercados financeiros.

 

Esse sentimento foi reforçado após a decisão, nesta manhã, do Banco Central Europeu (BCE) de esperar-para-ver em relação à política de juros na zona do euro. Ontem, o Comitê de Política Monetária (Copom) também afastou qualquer chance de corte na taxa Selic no curto prazo, inibindo o apetite por ações brasileiras e uma continuada valorização do real.

 

O fato é que desde o fim de junho os investidores vinham montando posições em ativos mais arriscados, como bolsas e moedas de países emergentes, em meio aos sinais dos principais bancos centrais globais de injeção de liquidez por meio de estímulos monetários sem precedentes, como a emissão de títulos perpétuos. Com a negativa dada hoje pelo presidente do BC japonês, Haruhiko Kuroda, essa disposição pelo risco perde força, deixando os negócios com ações no vermelho em Wall Street e se espalhando pelas demais bolsas no mundo.

 

Na Europa, os mercados financeiros depositavam alguma esperança em relação ao BCE, uma vez que a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia (UE) tende a diminuir o crescimento econômico da região como um todo. Tal visão, salientada pelo presidente do BCE, Mario Draghi, sugeria a necessidade de uma ação imediata na política monetária.

 

Por ora, porém, os juros na zona do euro seguiram onde estão e deve permanecer no nível atual de zero por um "período prolongado", o que manteve o euro na faixa de US$ 1,10. Logo mais, às 9h30, Draghi concede entrevista coletiva para explicar porque refreou em adotar novos estímulos agora, embora deva manter as opções de estímulos adicionais em aberto.

 

Entre as demais moedas, o dólar ganha terreno ante os rivais, exceto o iene. A moeda japonesa é negociada acima da faixa de 105 ienes por dólar, após Kuroda afirmar que não há necessidade ou possibilidade de um helicóptero do dinheiro para resgatar a economia do Japão, ao mesmo tempo em que reafirmou o compromisso de acabar com a era de deflação no país.

 

Nas divisas emergentes, destaque para o dólar neozelandês, que segue em queda ante o xará norte-americano, diante das firmes sinalizações do BC local (RBNZ) de que um corte nas taxas de juros é necessário para elevar a inflação e o afrouxo monetário pode acontecer já no próximo mês. No Brasil, o cenário é exatamente o contrário.

 

Ontem à noite, o Copom confirmou as expectativas e manteve o juro básico em 14,25% ao ano, mas a decisão foi acompanhada de um comunicado duro ("hawkish"), afastando qualquer chance de corte na Selic no curto prazo. Com um novo formato na mensagem que acompanha a decisão, o comunicado trouxe informações que eram esperadas apenas para a ata, a ser conhecida na próxima terça-feira.

 

De qualquer forma, a autoridade monetária manteve a postura de austeridade, sinalizando que as pressões inflacionárias ainda necessitam perdem maior vigor, mesmo com o alívio na alta dos preços oriundo da desaceleração da atividade econômica. Essa postura do BC brasileiro é corroborada pelo resultado da prévia da inflação oficial do país, medida pelo IPCA-15, conhecida nesta manhã.

 

O indicador ficou em 0,54% em julho, acima da mediana das expectativas do mercado (+0,45%) e acelerando-se ante o resultado de junho (+0,40%). Contudo, a inflação acumulada em 12 meses desacelerou um pouco, saindo de 8,98% e indo a 8,93%, mas segue encostada à faixa de 9%.

 

Assim, como afirmou o Copom, o balanço de riscos para o comportamento da inflação ainda não permite um ciclo de corte de juros no curto prazo. Isso tende a deixar o mercado doméstico mais cauteloso com relação às apostas para o rumo da Selic neste ano e no próximo, intensificando o movimento de realização de lucros esperado tanto na Bovespa quanto no dólar.

 

Afinal, aquele liquidez abundante de recursos que os investidores esperavam que fosse cair do céu, com um helicóptero jogando dinheiro pelo mundo, parece ter saído da rota.

 

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