Urso disfarçado de touro

09.06.2016

 

A sensação de que o rali nos mercados internacionais mais se parece a um passeio de montanha russa torna-se perceptível hoje, com os investidores reduzindo o apetite por risco. Afinal, sempre cabe um ajuste nos ativos, o que tende a ser replicado nos negócios locais, principalmente após a Bovespa cravar a quinta alta nas seis primeiras sessões de junho ontem e o dólar cair pelo sexto dia seguido, cotado nos menores níveis desde julho de 2015.

 

Esse movimento doméstico tem sido capitaneado pelo capital especulativo, que vem sendo sustentado pela chance menor de aperto monetário iminente pelo Federal Reserve, permitindo uma realocação dos recursos que foram embolsados em maio. No mês passado, os investidores estrangeiros retiraram quase R$ 2 bilhões da Bolsa, o que contribuiu para a saída recorde de dólares do país para o mês, totalizando US$ 3 bilhões.

 

Mas apostas de que o custo do empréstimo continuará barato nos Estado Unidos por mais algum tempo volta a enfraquecer o dólar mundo afora. Ao mesmo tempo, tem fortalecido bolsas e moedas de países emergentes, além das commodities, que vem sendo guiadas pela liquidez abundante, transformando o mercado de baixa (bear market ou mercado de urso) em um mercado de alta (bull market ou mercado de touro). Nesta manhã, porém, os índices futuros das bolsas de Nova York estão em baixa, contaminando a performance na Europa, que também é impactada pelo sinal negativo que prevaleceu nas praças das Ásia.

 

O petróleo também devolve os ganhos, mas o barril segue cotado acima de US$ 50, enquanto o cobre cai pelo segundo dia. Já o ouro se sustenta nos maiores níveis em três semanas. Entre as moedas, o iene ganha força, o que deprimiu a Bolsa de Tóquio (-0,97%), mas o destaque é o dólar neozelandês, que sobe mais de 2% ante o xará dos EUA, após o BC local (RBNZ) recuar em cortar os juros, por causa da expectativa de aceleração da inflação.

 

De um modo geral, o dólar recupera parte do terreno perdido ante os rivais, após as especulações de que o Fed deve retardar o próximo passo no processo de normalização monetária. A precificação, agora, prevê chance nula de aperto no juro norte-americano neste mês e apenas 18% de possibilidade de aumento em julho. Há 58% de probabilidade de uma nova alta apenas no fim do ano, mas essa chance estava em 74% no início da semana passada.

 

Os investidores estão, então, surfando na onda da liquidez dos principais bancos centrais, sendo que no Japão e na Europa a torneira segue injetando estímulos monetários, apesar da deterioração do mercado de trabalho nos EUA e da perspectiva de menor crescimento da economia global. Os investidores simplesmente não acreditam que essas más notícias são suficientes para conter a recuperação econômica mundial, que está titubeando há tempos, e se apoiam na perspectiva de que as dificuldades encontradas nas maiores economias irá manter a política dos BCs frouxa e acomodatícia por mais algum tempo.

 

Hoje, o BC da Coreia do Sul (BoK) juntou-se ao grupo de países com taxas perto de zero e, inesperadamente, cortou o juro básico - referente à taxa de recompra de sete dias - para uma nova mínima recorde, a 1,25%. Já o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve ontem, por unanimidade e pela sétima vez seguida, a taxa Selic em 14,25%, no mais longo período de estabilidade do juro básico desde a criação do comitê, em 1996.

 

Foi a última reunião do Copom sob o comando de Alexandre Tombini, que irá assumir o cargo de diretor-executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI), no lugar de Otaviano Canuto, que retorna ao Banco Mundial. Hoje, às 17h, o economista Ilan Goldfajn toma posse para o cargo de presidente do Banco Central.

 

Até por isso, os investidores têm se esquivado dos potenciais efeitos do noticiário político local, que se mostra mais agitado a cada dia, com denúncias espalhadas por todos os lados. Porém, eles estão cientes de que qualquer estresse maior por causa do cenário conturbado em Brasília torna-se a senha para uma correção firme dos ganhos recentes, pois tanto a Bolsa quanto o real já têm bastante gordura para queimar.

 

E a agenda econômica mais fraca hoje combinada com o feriado na China pode preparar o terreno para isso. O destaque no Brasil fica com a primeira prévia do IGP-M no mês, às 8h. No mesmo horário, saem indicadores antecedentes do emprego. Às 9h, é a vez de dados sobre a safra agrícola. No exterior, as atenções se voltam para os estoques no atacado norte-americano em abril (11h). Antes, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego (9h30). 

 

Antes de encurtar a semana em dois dias, por causa do Festival do Barco do Dragão, a China anunciou uma redução da deflação no atacado e aumento moderado dos preços no varejo. O índice de preços ao produtor (PPI) chinês caiu 2,8% em maio, em relação a um ano antes, no menor recuo desde o fim de 2014 e menos que a previsão de queda de 3,2%. Já o índice de preços ao consumidor (CPI) subiu 2% no período, menos que a previsão de -2,2%. Os mercados em Xangai e Hong Kong permaneceram fechados hoje.

 

 

 

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