Prioridades de um governo interino

02.06.2016

 

Os investidores não têm muito tempo para recompor o fôlego, em meio ao cenário político conturbado no Brasil e com as atenções voltadas para a política monetária nos Estados Unidos, e se deparam com mais um dia intenso. O destaque desta quinta-feira, no exterior, fica com a decisão de juros do Banco Central Europeu (BCE), pela manhã, enquanto o petróleo monitora, em alta, a reunião do cartel de produtores (Opep). Internamente, a aprovação da Desvinculação das Receitas da União (DRU) ficou condicionada ao reajuste de servidores, com impacto de até R$ 60 bilhões nas contas públicas até 2019.

 

Com o aval do presidente interino, Michel Temer, a Câmara aprovou, em primeiro turno, a prorrogação da DRU até 2023, mas antes autorizou um megapacote de aumento salarial do funcionalismo público nas três esferas de Poder, apesar do rombo de R$ 170,5 bilhões do governo apenas neste ano. Represados no governo Dilma, os 15 projetos de lei que estabelecem reajuste e benefícios ao funcionalismo foram aprovados ontem, sendo que o maior impacto vem do agraciamento na folha de pagamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

 

O rendimento de cada um dos 11 ministros, que delimita o teto entre os servidores, passou de pouco mais de R$ 33 mil para quase R$ 40 mil por mês. Em nota, o Ministério do Planejamento defendeu o reajuste, dizendo que já “estavam assegurados os recursos” no Orçamento, mas a Lei Orçamentária Anual (LOA) deste ano prevê um impacto dos reajustes de apenas R$ 8,5 bilhões - valor referente somente ao Executivo, sem especificar as demais categorias. Mas o impacto não foi divulgado com clareza, uma vez que os reajustes são escalonados pelos próximos três anos.
 

Trata-se de um contrassenso, diante dos quase 11,5 milhões de brasileiros desempregados, conforme dados divulgados recentemente, sendo que a renda média da população empregada não alcança R$ 2 mil. Além disso, a economia brasileira acumula cinco trimestres consecutivos de retração, na pior recessão em 25 anos. Ainda que sejam números da gestão anterior, as vitórias de Temer no Congresso e as propostas de arrocho social da equipe econômica mostram-se como uma guinada à política até então adotada. E o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou que o neoliberalismo contribui para elevar a desigualdade, sem entregar o que promete.

 

Nesse cenário, fica complicado pregar um aumento da idade mínima para se aposentar, leis trabalhistas mais flexíveis para demitir e contratar e uma contenção nos gastos com saúde e educação. São pautas nada amigáveis, capazes de tumultuar o ambiente social antes das eleições municipais, em outubro. Até porque, não há perspectivas de alívio nem contrapartidas, como uma tabela progressiva do imposto de renda ou outras medidas de distribuição dos sacrifícios.

 

Mas a classe política está envolta de uma nuvem de fumaça criada pelos efeitos avassaladores, como se especulam nos negócios, das delações premiadas de executivos de empreiteiras no âmbito da Operação Lava Jato e tenta se resguardar. Rumores dão conta de uma nova fase da Operação hoje, com a Polícia Federal cumprindo mandados de prisão em Brasília, autorizados pelo ministro do STF, Teori Zavascki. O alvo seria o PMDB.

 

De quebra, o potencial das declarações feitas pela Odebrecht, principalmente, já produz um cheiro de queimado nas reformas econômicas propostas pela equipe de Temer. Essa renovada instabilidade política atua na contramão da recuperação da economia brasileira, e desafia a retomada da confiança dos diferentes agentes econômicos, que vinha dando sinais de melhora. Isso sem falar nas possíveis baixas judiciais de grandes banqueiros por causa da Operação Zelotes.

 

Além disso, enquanto o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, se movimenta nos bastidores, mantendo sob controle cerca de 200 fiéis deputados; no Senado, o cargo do presidente, Renan Calheiros, está por um fio, podendo ser substituído por Jorge Viana, do PT – o que seria um pesadelo para o PMDB e seus partidos aliados.

 

Assim, o sentimento de que as coisas poderiam melhorar um pouco na economia e na política com o afastamento da presidente Dilma Rousseff é colocado em xeque. Não que se resolveria tudo em um passe de mágica, com uma varinha de condão, mas o fato é que as ameaças a qualquer tentativa de reversão persistem – e podem entrar em estágio terminal.

 

E também não se pode esquecer o mundo lá fora, onde é cada vez mais latente a possibilidade de aumento dos juros norte-americanos. Seja em junho ou em julho, a proximidade de uma nova alta na taxa pelo Federal Reserve tende a antecipar uma precificação (leia-se correção) nos preços dos ativos de risco, provocando duro revés sobre a Bovespa e o real.

 

Porém, as bolsas e moedas de países emergentes avançam hoje, em meio às dúvidas sobre se a economia dos EUA está forte o suficiente para suportar mais um aperto monetário, enquanto o crescimento no restante do mundo titubeia, com a China se esforçando para controlar a desaceleração da atividade. Mas as atenções se voltam para o BC da zona do euro, que deve reforçar as posturas divergentes em termos de política monetária nos dois lados do Atlântico Norte. A perspectiva é de que os estímulos vigentes sejam mantidos, sem a adoção de novos.

 

Só que podem surgir surpresas da entrevista que o presidente do BCE, Mario Draghi, concede (9h30) na sequência do anúncio da decisão (8h45). No aguardo desses eventos, as principais bolsas europeias não exibem um rumo único, com Paris e Frankfurt em baixa, à medida que o euro é negociado no maior nível em uma semana, mas Londres está em alta, já de olho no referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE), no próximo dia 23.

 

Nos EUA, destaque para os números sobre o mercado de trabalho no setor privado em maio, às 9h15, que são vistos como uma prévia dos dados oficiais sobre o emprego no país (payroll) no mês passado, a serem conhecidos amanhã, e que podem calibrar as apostas em relação ao Fed. A previsão é de criação de 180 mil vagas pelas empresas, de 150 mil no mês anterior.

 

Geralmente às quartas-feiras, a divulgação do documento da ADP foi adiada para hoje, por causa do feriado nos EUA na última segunda-feira. Da mesma forma, também ficou para hoje os estoques semanais de petróleo bruto e derivados no país (12h). À espera desses números e de olho na reunião da Opep, que deve discutir um teto para a produção, o barril da commodity volta a ser negociado acima  US$ 49. Já os índices futuros das bolsas de Nova York estão em baixa. 

 

Ainda na agenda econômica norte-americana, às 9h30, saem os pedidos de auxílio-desemprego feitos no país nos últimos dias de maio, adicionando ingredientes para o payroll referente ao mesmo mês. No Brasil, será conhecido o desempenho da indústria em abril, que deve mostrar retração de 1% ante março. Em relação a um ano antes, o setor deve ter registrado a 26ª taxa negativa seguida, de -8,5%. Os números efetivos serão conhecidos às 9h.

 

 

 

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