Sai política, entra economia

18.05.2016

 

Aos poucos, os mercados domésticos estão deslocando o foco e reagindo mais aos parâmetros econômicos do que ao cenário político, o que deve concentrar as atenções do dia na ata do Federal Reserve, à tarde (15h). As perspectivas de um aumento da taxa de juros nos Estados Unidos ainda neste ano pesam nos mercados internacionais nesta quarta-feira, com os investidores avaliando a possibilidade de esse aperto acontecer antes do esperado.

 

As apostas para uma elevação dos Fed Funds em junho triplicaram, após os números robustos sobre as vendas no varejo e a produção industrial norte-americana combinados com o maior avanço da inflação ao consumidor do país em três anos, mas a precificação de um aumento já no mês que vem estão em apenas 12%. Além disso, o tom dos discursos de vários membros votantes do Fed está cada vez mais duro ("hawkish"), o que eleva a chance de até duas novas altas nos juros dos EUA até dezembro.

 

Em reação, as bolsas ao redor do mundo estão em baixa, ao passo que o dólar se fortalece de modo generalizado ante os rivais, em especial em relação às moedas de países emergentes. Os índices futuros das bolsas de Nova York estão no vermelho, à medida boas notícias para a economia dos EUA são ruins para os ativos de risco. O petróleo também recua, à espera dos estoques semanais da commodity nos EUA (11h30), que pode apontar queda. Os metais básicos e preciosos caem pela primeira vez, em quatro dias.

 

As principais bolsas europeias acompanham esse sinal negativo em Wall Street, com as perdas lideradas pelas mineradoras, diante da apreensão em relação ao Fed. A confirmação da volta à deflação na zona do euro em abril, com recuo de 0,2% do índice de preços ao consumidor (CPI) em relação a um ano antes, mostra que o Banco Central Europeu (BCE) tem um árduo caminho para resgatar a economia da região da moeda única, que cresce a ritmo lento, sem gerar pressão nos preços.

 

No Japão, o cenário dá sinais de melhora. A terceira maior economia do mundo cresceu a uma taxa anualizada de 1,7% nos três primeiros meses de 2016, bem acima da expectativa de alta de 0,3%. Os números evitam uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) no início deste ano, após a contração da atividade ao final do ano passado, e explicam os motivos do BC japonês (BoJ) ter evitado adotar novos estímulos na última reunião, após lançar mão da taxa negativa de juros em janeiro.

 

Ainda assim, essa divergência em termos de política monetária das principais economias globais traz dúvidas aos investidores. Nesse ambiente de incerteza, a Bolsa de Tóquio fechou em leve baixa de 0,05%. Ainda na Ásia, as bolsas de Xangai (-1,27%) e de Seul (-1,21%) recuaram ao menor nível em dois meses, assim como a praça em Hong Kong (-1,45%). O índice chinês Xangai Composto já caiu mais de 20% neste ano, no pior desempenho global.

 

Portanto, os mercados domésticos vão operar de olho no cenário externo, mas também sem descuidar do cenário político. Os investidores devem continuar monitorando as ações no Senado, na expectativa de que o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff torne-se definitivo. Afinal, a duração do governo Temer é de seis meses e qualquer medida a ser adotada fica, por enquanto, condicionada a esse prazo.

 

Os investidores aguardam, então, uma definição em relação ao mandato presidencial até 2018 para renovar a rodada de apetite por risco no Brasil. De qualquer forma, os negócios locais receberam de bom grado as primeiras sinalizações dadas ontem pelo novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.

 

Além de confirmar o nome do economista-chefe do Itaú Ilan Goldfajn no comando do Banco Central, Meirelles indicou que a autoridade monetária terá autonomia técnica, no que se refere às decisões sobre juros. O chefe da Pasta também sinalizou que pretende reduzir a dívida pública via aumento de impostos, podendo lançar mão tanto da CPMF quanto do imposto sobre combustíveis (CIDE).

 

Tratam-se de medidas amigáveis ao mercado – o chamado “market friendly”, que mostram que Meirelles está assumindo as rédeas na condução econômica. Mas um novo rali dos ativos brasileiros depende da definição no front político. E a comissão especial do Senado já retomou os trabalhos sobre o impeachment de Dilma.

 

Nessa nova fase, o objetivo é apurar se Dilma cometeu de fato crime de responsabilidade. Um novo parecer deve ser elaborado e votado na comissão. Independentemente do resultado, o documento seguirá ao plenário para apreciação dos 81 senadores. Na votação final, os parlamentares votam sim ou não à pergunta do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, sobre se Dilma cometeu crime durante o mandato.

 

Para aprovar o impeachment, é preciso dois terços dos senadores, o equivalente a 54 votos. Se for absolvida, Dilma volta ao cargo e dá continuidade a sua gestão. Se for condenada, ela é destituída e fica inabilitada de exercer função pública por oito anos. O presidente interino, Michel Temer, assume, então, a presidência de modo definitivo, até o fim do mandato, em dezembro de 2017.

 

Porém, o ministro do STF Marco Aurélio Mello liberou ontem para julgamento no plenário da Corte a ação que pede a abertura de processo de impeachment Temer. Agora cabe a Lewandowski determinar a data para o julgamento do caso. Recentemente, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu que o STF cassasse a liminar concedida por Marco Aurélio.

 

Entre os indicadores econômicos, destaque para os números semanais do fluxo cambial (12h30) e para a segunda prévia do mês do IGP-M (8h). Logo cedo, a Fipe informou que os preços ao consumidor na cidade de São Paulo acelerou a 0,41%, de 0,38% na primeira leitura de maio.

 

 

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