Contagem regressiva


A contagem regressiva dos mercados domésticos para o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff entra na reta final, o que eleva as expectativas dos investidores em relação ao governo Temer. Após a aprovação do relatório na comissão especial do impeachment, na sexta-feira passada, a votação do parecer pelo plenário do Senado começa nesta quarta-feira, podendo tirar Dilma do cargo por até 180 dias a partir de sexta-feira.

O presidente da Casa, Renan Calheiros, deve fazer hoje a leitura do resultado ao plenário. Com isso, começa a contar o prazo de 48 horas para a votação do parecer, que será feita por painel eletrônico - e não chamada nominal, como houve na Câmara. Assim, a sessão para discussões começa na quarta-feira, mas a votação deve ocorrer somente na quinta-feira, pois o tempo estimado apenas para a fase de discursos é de 20 horas.

O governo não acredita em vitória no Senado, contando com até 23 votos, e já dá como certo o afastamento de Dilma. Ainda assim, a ala governista tenta conquistar pelo menos um terço dos votos, o que criaria as condições para impedir o afastamento definitivo da presidente, que será votado em até 180 dias. Inicialmente, basta o apoio da maioria simples de senadores, ou seja, 41 votos.

Aí, Temer irá substituir Dilma no cargo – mas não automaticamente irá sucedê-la, já que ela não deixará de ser presidente e ainda haverá um prazo para a conclusão do julgamento contra o mandato dela. Com isso, qualquer nomeação feita pelo então vice em exercício pode ser questionada na Justiça, pois os ministros seguem em seus cargos – inclusive os da área econômica. Da mesma forma, o anúncio de medidas cria uma dualidade de poder.

Aliás, os investidores estão cada vez mais ressabiados com um eventual governo Temer. Ele já está sendo criticado pela imprensa, por estar cedendo favores a aliados sem promover grandes mudanças na formação da equipe, enquanto nas redes sociais vem sendo chamado de "ficha-suja". Além disso, cada notícia que surge mais parece um desejo de um grupo de interesse do que uma própria intenção do vice, já que ele mesmo ainda não se manifestou.

Com o cenário político em foco, o calendário econômico tende a ficar em segundo plano. Até porque os indicadores previstos até sexta-feira têm menor peso, trazendo como destaque apenas as vendas no varejo, na quarta-feira, e o volume no setor de serviços, no dia seguinte. Após a divulgação desses dados, espera-se o anúncio do Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) do Banco Central, na sexta-feira.

Na safra de balanços, o grande destaque é o resultado trimestral da Petrobras, na quinta-feira, após o fechamento do mercado. Hoje, tem as tradicionais divulgações do dia: Boletim Focus (8h25), que deve trazer atualizações nas previsões para inflação e juros, após ata da decisão do Banco Central e do resultado oficial dos preços ao consumidor em abril, e balança comercial semanal (15h), que deve seguir com saldo robusto.

No exterior, as atenções também se voltam para os números do comércio varejista e dos preços ao produtor nos Estados Unidos, ambos na sexta-feira. Antes, na zona do euro, saem os dados da produção industrial (quinta-feira) e do Produto Interno Bruto (PIB), um dia depois. Hoje, o destaque fica com dados de inflação no atacado e no varejo chinês, à noite.

Logo cedo, a China informou números desanimadores sobre a balança comercial, que atingiram em cheio a Bolsa de Xangai, mas têm efeito limitado no Ocidente. O índice Xangai Composto caiu 2,8%, acumulando a maior perda em dois dias desde fevereiro e fechando no menor nível desde o início de março.

A queda foi liderada pelas ações de produtores de commodities e da indústria, após as exportações do país recuarem 1,8% em abril, em termos dolarizados, e as importações cederem pelo 18º mês consecutivo, desta vez em -10,9%. Ainda assim, o saldo da balança comercial chinesa atingiu o recorde de US$ 45,6 bilhões. A situação da dívida do país também contribuiu para a queda do mercado acionário chinês.

Porém, as principais bolsas europeias avançam, depois de encerrarem a semana passada no menor nível em um mês. O avanço do barril de petróleo para acima de US$ 45, em meio aos incêndios no Canadá, estimula o movimento. Mas os índices futuros das bolsas de Nova York estão na linha d'água, com ligeiro viés de baixa.

De qualquer forma, após a pior semana para os mercados internacionais desde fevereiro, os investidores buscam uma recomposição nos preços dos ativos. Até porque os dados de emprego nos Estados Unidos (payroll) em abril não reforçaram as chances de aperto nos juros pelo Federal Reserve no próximo mês, o que pode realimentar o apetite por risco, após o desmonte recente.

Somada a essa percepção sobre os juros norte-americanos está a preocupação de que a economia global segue em um ritmo lento e suave, em meio aos dados sobre a atividade na China, na zona do euro e no próprio EUA, o que tende a manter os estímulos monetários. Da mesma forma, os balanços das empresas parecem ter se cristalizado.

Contudo, para os três investidores mais influentes no mercado de bônus - Bill Gross, Mohamed El-Erian e Mark Kiesel - o Fed segue a caminho de aumentar em mais 0,25 ponto porcentual os juros dos EUA, mesmo após o payroll. Isso porque a economia norte-americana está firme na situação de pleno emprego - na qual as pessoas têm mais dificuldade em encontrar vagas, mas as empresas têm de pagar mais para contratar - e os resultados corporativos cresceram levemente (+2,5%) em relação a um ano antes.

Assim, junho não está totalmente descartado - e o presidente da distrital de Nova York do Fed, William Dudley, corrobora essa visão. Para ele, é razoável esperar por mais dois aumentos nos juros este ano.

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