Positivo ou negativo?

04.03.2016

 

Enquanto internamente os mercados têm preenchido o espaço negativo da economia com especulações alimentadas no front político, no exterior, os dados sobre o mercado de trabalho nos Estados Unidos (payroll), hoje, podem deixar dúvidas sobre qual será a leitura dos investidores. Afinal, qualquer indício de melhora adicional do emprego no país é um sinal positivo, mas também ampliam as chances de nova alta nos juros por lá.

 

Mas o que tem movimentando os negócios locais é o capital especulativo, ávido pelas opções de compra no Brasil "barato", desde que o país deixou de ser grau de investimento, e que é alimentado pelo noticiário político. O salto da Bovespa ontem, na maior alta diária desde 2009 para o maior nível desde novembro, é um exemplo clássico desse apetite - dos "gringos", principalmente - tanto que dólar já vale R$ 3,80.

 

Como ensina o velho jargão do mercado, "bolsa sobe e dólar cai", os investidores estrangeiros intensificaram neste início de março o ritmo de compra de ações brasileiras, que garantiu em fevereiro o maior saldo de aportes externos desde outubro. De quebra, foi o primeiro mês de valorização da bolsa, desde então.

 

Nesse processo que se retroalimenta de delações e vazamentos - "ilegais e seletivos", na opinião de Dilma Rousseff - sobre o esquema de corrupção na Petrobras, o mercado doméstico já se posiciona em torno do impeachment da presidente e não importa se há uma "execração pública", como também afirmou Dilma, ignorando a "presunção da inocência". Sempre se antecipando, o mercado já vê o vice, Michel Temer, no poder até 2018, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não deve ter mais chances.

 

Trata-se de uma via muito menos tensa do que o vazio institucional que se assumiria caso a oposição levasse a cabo a destituição da chapa vitoriosa no pleito de 2014. Com a cassação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quem assumiria o poder, interinamente, até a convocação de novas eleições, seria o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha - primeiro parlamentar no exercício de mandato a torna-se réu na Lava Jato.

 

O placar no Supremo Tribunal Federal (STF) foi unânime, por 10 votos a zero, no único fato político verossímil de quinta-feira, mas que ficou relegado, em um dia turbulento para os negócios, em termos de divulgações econômicas. Mas de nada adiantou o senador Delcídio do Amaral afirmar, em nota, que não confirma o conteúdo da reportagem publicada em uma revista semanal.

 

A magazine traz documentos que teriam sido apresentados para acordo de delação premiada. Porém, o senador diz que não conhece a origem ou autenticidade dos documentos nem foi contatado para se manifestar sobre a veracidade do relatado. 

 

Desse modo, se nem os números desalentadores sobre a economia como um todo, ontem, fizeram preço nos mercados; hoje, os negócios devem novamente ignorar os dados sobre a atividade industrial, que começou 2016 ainda em queda. A previsão é de recuo de 0,5% da produção da indústria em janeiro ante dezembro, no oitavo mês seguido de taxa negativa.

 

Na comparação anual, a queda do setor deve chegar a 15%, na 23ª taxa negativa consecutiva. O resultado oficial será divulgado às 9 horas. Depois, às 11h20, saem os números da Anfavea sobre a indústria automotiva em fevereiro.

 

No exterior, o apetite pelo risco continua. As principais bolsas asiáticas fecharam em alta, embalando a abertura do pregão na Europa, ao passo que os índices futuros das bolsas de Nova York têm leve viés positivo. Os mercados emergentes caminham para a melhor semana desde outubro, com o aumento dos preços das commodities atraindo os investidores, antes do encontro anual de líderes da China e do payroll nos EUA.

 

A Bolsa de Xangai se recuperou do tombo de 6% visto na segunda-feira e registrou o maior ganho semanal do ano, de +3,9%, em meio aos sinais de intervenção das autoridades à medida que tem início a chamada "Duas sessões". As apostas são de que as propostas a serem aprovadas por Pequim para os próximos cinco anos irão mudar a orientação da política monetária de "prudente" para "prudente com leve viés de flexibilização".

 

Além disso, deve-se buscar uma maior estabilidade do yuan. A moeda chinesa fechou em alta hoje pelo quarto dia seguido, após o Banco Central local (PBoC) elevar a taxa diária de referência. Entre as demais moedas, o won sul-coreno registrou a melhor semana em cinco meses, enquanto a rupia indonésia subiu ao maior nível em nove meses.

 

O fluxo de capital externo foi em direção aos ativos da Coreia do Sul, Índia, Taiwan e Tailândia neste semana, somando mais de US$ 2,5 bilhões, à medida que as medidas de estímulo na China e os dados positivos nos EUA atenuaram as preocupações com a economia global. Agora, os investidores estarão atentos aos dados de emprego na maior economia do mundo, em busca de pistas sobre o ritmo de aperto dos juros pelo Federal Reserve.

 

Por ora, os indicadores recentes sobre a maior economia do mundo afastaram a tese de que os Estados Unidos estariam prestes a entrar em recessão. Contudo, esse otimismo maior acerca da economia do país também elevou os receios de que o Fed pode voltar a agir, em breve. Ainda assim, não seria prudente promover uma nova alta já na reunião deste mês, que acontece na semana que vem. 

 

De qualquer forma, o relatório oficial de emprego em fevereiro tende a calibrar as apostas sobre o momento exato para o próximo aperto dos Fed Funds. O chamado payroll será divulgado às 10h30 e a previsão é de geração de 195 mil vagas, de 151 mil em janeiro, com a taxa de desemprego seguindo em 4,9%. Para o ganho médio por hora, a previsão é de alta de 0,3%.

 

No mesmo horário, sai também os dados de janeiro da balança comercial.   

 

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