Política divide atenção com economia

02.03.2016

 

 

Após um pedido do governo, ficou para a próxima terça-feira a votação no plenário da Câmara dos Deputados sobre a suspensão do cálculo do desconto na dívida dos Estados e municípios com a União, que altera o indexador e a cobrança de juros e pode resultar em perda de R$ 300 bilhões em arrecadação federal. A Casa, ontem, esteve ocupada com o processo que pede a cassação do mandato do presidente Eduardo Cunha.

 

Por 11 votos a 10, o Conselho de Ética abriu processo contra ele, na primeira fase da admissibilidade por suposta quebra de decoro parlamentar. Contudo, a votação, ocorrida na madrugada, ainda é passível de recursos. De qualquer forma, a partir de agora, Cunha tem 10 dias para apresentar sua defesa.

 

Este revés ao presidente da Câmara pode desviar a percepção de enfraquecimento do governo Dilma, que ainda não conseguiu superar as rusgas com o PT. Os sinais vindos do Palácio do Planalto não são bons, pois a relação desfavorável da presidente Dilma Rousseff até mesmo com seu partido tende a reduzir a possibilidade de aprovação de medidas e/ou reformas necessárias ao Brasil atual.

 

Contudo, a política em si está agindo positivamente nos mercados domésticos, o que levou o dólar para abaixo de R$ 3,95 e a Bovespa para o maior nível do ano, já nos 44 mil pontos, ontem, em meio às apostas de que o clima em Brasília pode aumentar as chances do impeachment. A isso, somam-se possíveis novas delações no âmbito da Operação Lava Jato, fechando o cerco também sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Dessa forma, as apostas majoritárias de piora do quadro político ecoam os movimentos vistos durante as eleições presidenciais de 2014, com os investidores ainda carregando o sentimento pró-oposição e cavando o poço, antes de ficarem sedentos. Já o apetite por risco tenta ter continuidade hoje no exterior, após os resultados da "Superterça" nos Estados Unidos, que praticamente definiram Donald Trump e Hillary Clinton no pleito.

 

O republicano e a democrata ganharam em sete Estados, cada, largando na frente das prévias dos candidatos que estarão na disputa eleitoral em novembro. Hillary venceu no Texas,Virginia, Massachusetts, Georgia, Tennessee, Alabama and Arkansas, enquanto seu principal opositor Bernie Sanders ganhou em seu Estado natal de Vermont e também  nos caucus de Oklahoma, Colorado e Minnesota.

 

Trump, por sua vez, reivindicou uma vitória esmagadora sobre seus rivais, mas a conquista do Estado do Texas e do vizinho Oklahoma manteve a campanha de Ted Cruz viva. Em meio aos resultados, os índices futuros das bolsas de Nova York têm ligeiro viés de baixa, sinalizando uma devolução dos fortes ganhos da véspera.

 

As principais bolsas europeias abriram no azul, uma vez que não acompanharam a alta de mais de 2% ontem em Wall Street. Da mesma forma, a Ásia registrou alta acelerada, com Tóquio e Xangai subindo pouco mais de 4%, seguindo o embalo de ontem no Ocidente.

 

Ainda assim, chama atenção a decisão da Moody's de rebaixar a perspectiva da nota de risco de crédito da China, de estável para negativa, em meio à saída de capital externo do país e a situação das dívidas regionais. A capacidade de Pequim de colocar em curso as reformas estruturais também foi citada, às vésperas do início do encontro de líderes chineses para definir as metas para a economia do país até 2020.

 

Entre os mercados emergentes e correlacionados às commodities, destaque para o dólar australiano. O chamado "aussie" ganha terreno pelo terceiro dia seguido, embalado pela menor probabilidade de corte dos juros básicos pelo Banco Central local (RBA) em maio e também pelo crescimento de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) da Austrália no quarto trimestre do ano passado ante o período anterior.

 

A previsão era de expansão menor, de +0,4%. Nas commodities, o cobre lidera os ganhos entre os metais básicos, ao passo que o petróleo devolve os ganhos pela primeira vez nesta semana, antes dos números oficiais sobre os estoques semanais norte-americanos, às 12h30.

 

Na agenda econômica do dia, o grande destaque doméstico fica para a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que será conhecida apenas à noite. O mercado financeiro é unânime em apostar na manutenção da taxa básica de juros em 14,25%, pela quinta vez consecutiva. Ainda assim, a Selic seguirá no maior nível desde agosto de 2006.

 

A última vez que o Copom promoveu alterações na taxa básica foi em julho do ano passado, quando apertou o juro em 0,50 ponto porcentual, na sétima elevação consecutiva (desde outubro de 2014). Desde setembro de 2015 (ou quatro encontros), a Selic ficou estável.

 

Além disso, os recentes discursos vindos do Banco Central demoveram as apostas de que a Selic pode cair neste ano, mas tampouco reforçaram as chances de altas. Dessa forma, o Copom não deve se comprometer com nenhum cenário à frente, seja no comunicado que acompanhará a decisão de hoje, seja na ata do encontro de março, na semana que vem.

 

Antes, às 12h30, o BC traz os números do fluxo cambial no mês passado e o índice de commodities (IC-Br). Pela manhã, o calendário local traz a inflação ao consumidor pelo IPC-S nas capitais em fevereiro (8h) e os preços no atacado pelo IPP em janeiro (9h). Logo cedo, a Fipe informou que o IPC na cidade de São Paulo desacelerou a 0,89% em fevereiro.

 

Já no exterior, destaque para as divulgações nos Estados Unidos. Às 10h15, sai a pesquisa ADP sobre a geração de emprego no setor privado do país em fevereiro, que é tido como um termômetro para os números oficiais sobre o mercado de trabalho norte-americano, compilados no payroll. À tarde, às 16h, o Federal Reserve divulga o Livro Bege. 

 

Essas publicações tendem a calibrar as apostas em relação à condução da política monetária nos EUA, às vésperas do encontro de março do Fed, na semana que vem. Conhecida por ser uma reunião “cabeça de trimestre”, era esperada, inicialmente, uma alta dos juros agora, em meio ao prognóstico original do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) de promover quatro apertos na taxa em 2016 – uma em cada mês que fecha o trimestre (março, junho, setembro e dezembro).

 

Caso os juros nos EUA subam agora – o que se tornou pouco provável - uma reprecificação nos ativos deve ocorrer. Mas mesmo que a elevação não aconteça neste mês, as incertezas quanto ao timing da próxima alta tendem a ampliar a apreensão nos negócios, uma vez que os indicadores econômicos recentes sobre a maior economia do mundo não descartam um aumento dos Fed Funds antes do esperado.

 

Afinal, a própria presidente do Fed, Janet Yellen, tratou de direcionar as expectativas mais para um cenário de elevação gradual dos juros do que a uma reversão de tendência, rumo a taxas negativas. Contudo, ela também se mostrou atenta à economia global e, principalmente, à China.

 

 

 

 

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