Após ressaca com S&P, mercado espera cortes no Orçamento

19.02.2016

 

Após a estranha reação do mercado doméstico ao inesperado novo rebaixamento da Standard & Poor’s (S&P) na nota de crédito do Brasil, na quarta-feira à tarde, os investidores aguardam, hoje, o anúncio do governo para o corte no Orçamento, que deve ficar em até R$ 25 bilhões e pode ser acompanhado de um teto para as despesas e de uma banda para o resultado primário, podendo permitir até um rombo nas contas públicas, de até 1% do Produto Interno Bruto (PIB).

 

Tal premissa permitiria que a meta fiscal fosse descumprida, sem gerar problemas jurídicos. Em verdade, o governo sabe que mesmo com a aprovação da CPMF no Congresso, é muito difícil economizar recursos para reduzir a dívida pública, diante da recessão em curso, que diminui a arrecadação. Nem mesmo a proposta de fixar uma meta para os gastos ajudaria.

 

Por esse motivo, a equipe econômica pretende propor essa banda de flutuação – o que desagrada não só aos investidores, mas também às agências de rating. É válido lembrar que a Moody’s ainda não se manifestou sobre a nota de crédito soberano do país desde a sua recente visita oficial, no início do mês. A agência é a única entre as três grandes do mundo que ainda mantém o grau de investimento do Brasil.

 

Porém, não só os investidores, como o próprio Palácio do Planalto, minimizaram a decisão da S&P de afastar o rating brasileiro ainda mais do seleto grupo de países que possuem grau de investimento, menos de seis meses após tirar o selo de bom pagador. Ainda assim, ao equiparar a situação da dívida e da economia nacional ao mesmo patamar de Bolívia, Paraguai e Guatemala, os investidores colocaram o pé no freio.

 

No dia do anúncio, a Bovespa saiu de ganhos de mais de 3%, já na casa dos 42 mil pontos, e acabou fechando com alta mais moderada, ao redor de 1,5%, mas ainda no maior nível do mês (e desde o início de janeiro). Ontem, manteve a faixa dos 41 mil pontos, recuperada na véspera e que adentra a Bolsa em tendência de alta no curto prazo, mas caiu, realizando lucros após quatro dias de ganhos e sofrendo com os rebaixamentos em série da S&P em mais de 30 empresas, na esteira do downgrade soberano. Entre os destaques, a piora na avaliação de Petrobras, Itaú Unibanco e Bradesco. Ambev, que também teve a nota cortada, segue com o grau de investimento.

 

O dólar, por sua vez, recuperou a marca de R$ 4,00 e, embora tenha dispensando ajustes mais intensos, a moeda norte-americana vai ganhando terreno acima desse nível, que agora parece ser um piso mais firme. Nos juros futuros, após abandonar a ideia de novas altas da Selic neste ano, o mercado refez a conta e percebeu que tampouco há espaço para cortes na taxa - ao menos por enquanto. Essa expectativa deve ser confirmada pelo diretor do Banco Central, Altamir Lopes, durante a divulgação do boletim regional hoje (11h), em Fortaleza.

 

Já o governo está convicto de que a revisão da nota pela agência de classificação de risco é temporária. Embora o passo adiante dado pela S&P possa induzir novos rebaixamentos pelas outras duas grandes agências – Fitch e Moody’s - o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, avalia que conseguirá reverter essa visão sobre o Brasil tão logo as dificuldades econômicas e políticas sejam superadas.

 

A recondução de Leonardo Picciani à liderança do PMDB na Câmara é vista como um fator positivo nesse cenário, capaz de enfraquecer a pauta do impeachment contra o mandato de Dilma Rousseff na Casa. Por outro lado, a aprovação das emendas constitucionais da DRU e da CPMF, que tramitam no Congresso, tende a reduzir as incertezas fiscais.

 

Mas enquanto o governo ainda busca tempo hábil para que a economia melhore e os resultados esperados comecem a produzir efeitos, o mundo não para de girar. China e petróleo continuam como os principais direcionadores dos negócios globais e, qualquer indício de interrupção na produção da commodity ou de estímulos adicionais à segunda maior economia, trazem alívio aos investidores.

 

Esta semana, porém, o calendário econômico mais fraco abriu espaço para uma recomposição nos preços dos ativos, principalmente os de maior risco, após o Federal Reserve reforçar a percepção que tende a adiar o processo de normalização das taxas de juros nos Estados Unidos. A autoridade monetária observou que vai depender do panorama local e global e local para adotar novos movimentos.

 

Na agenda do dia nos EUA, a inflação ao consumidor (CPI) em janeiro pode corroborar esse viés mais suave (“dovish”) do Fed, em meio à ausência de pressão inflacionária no varejo. O dado será conhecido às 11h30. Na Europa, destaque para a leitura preliminar deste mês da confiança do consumidor (13h) e também para as discussões, em Bruxelas, sobre a eventual saída do Reino Unido da União Europeia (UE).

 

À espera desses números, os mercados internacionais já se preparam para o que reserva a semana que vem, com um calendário de eventos e indicadores econômicos de maior peso no Ocidente, suficientes para aguçar o apetite por risco (ou não). Por enquanto, os índices futuros das bolsas de Nova York têm um leve viés de alta, na contramão do petróleo, ao passo que a Europa está na linha d'água, depois que o sinal negativo prevaleceu na Ásia. Xangai caiu 0,10% e Tóquio cedeu 1,42%.

 

No Brasil, hoje saem a segunda prévia de fevereiro do IGP-M (8h) e a PNAD contínua do IBGE (9h), que em breve substituirá a pesquisa mensal de emprego (PME). O dado sobre o mercado de trabalho, porém, é um pouco defasado e ainda refere-se ao mês de novembro do ano passado. Na safra de balanços, saem os resultados trimestrais e de 2015 da BM&FBovespa, Itaúsa, Suzano Papel e Celulose e Hypermarcas.

 

Não há um horário previsto para a divulgação do governo sobre os cortes no Orçamento. Na agenda do dia, não constam compromissos do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Já a presidente Dilma Rousseff embarca para o Nordeste.

 

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