Mercado só acredita vendo

22.12.2015

 

Por mais que a sinalização de Nelson Barbosa tenha sido positiva ontem, para o mercado financeiro não adianta ficar só no gogó. Os investidores querem ver ações, tal qual Tomé, um dos 12 apóstolos, que precisava ver para crer. Mais confiante, a presidente Dilma Rousseff disse a aliados que o novo ministro da Fazenda vai surpreender e retomar o crescimento econômico, "sem guinada nem mudanças bruscas".  

 

Mesmo reafirmando o compromisso com a política econômica defendida por Joaquim Levy, a reação dos negócios locais na segunda-feira foi uma extensão do que se viu na sexta-feira passada, com o Ibovespa renovando o patamar mais baixo desde abril de 2009 e o dólar ultrapassando a faixa de R$ 4 pela primeira vez desde setembro. Mas o volume financeiro é fraco, o que potencializa os movimentos - seja de alta ou de baixa.

 

Já nesta terça-feira a China abre espaço para uma recuperação dos ativos globais, principalmente dos países emergentes, o que pode garantir uma recuperação no Brasil. Ontem à noite, líderes de Pequim sinalizaram que vão tomar novas medidas para apoiar a economia, executando uma política monetária mais "flexível" e uma política fiscal mais "forte", a fim de criar "condições apropriadas para as reformas estruturais".

 

Não se trata de algo muito diferente do que disse Barbosa, ontem, que prometeu apresentar propostas para reformas microeconômicas, reduzindo os gastos obrigatórios e introduzindo uma idade mínima para a aposentadoria, logo no primeiro trimestre de 2016. Porém, no exterior, os investidores estão mais confiantes com a segunda maior economia do mundo, o que sustenta moedas e ações de países emergentes.

 

A Bolsa de Xangai subiu pouco, +0,26%, mas foi o suficiente para avançar ao maior nível em quatro meses. Hong Kong também teve uma alta modesta, de +0,18%, ao passo que Tóquio caiu 0,15%, com os investidores avaliando a perspectiva de mais estímulo por parte da China, que quer frear a crescente dependência sobre o crédito, sem deixar a expansão da economia lenta demais.

 

Entre as moedas, o yuan chinês subiu pelo terceiro dia consecutivo, digerindo ainda o pedido de autoridades chinesas para estender o período de negociação diária da moeda local onshore. A rupia indonésia caminha para o maior rali desde outubro, após o governo anunciar um novo pacote de medidas, enquanto o won sul-coreano avançou à máxima em duas semanas e o rublo russo recuperou-se da mínima recorde. Por sua vez, os dólares australiano e neozelandês avançam pelo terceiro dia seguido, cada.

 

Ou seja, o dólar dos Estados Unidos perde terreno para os rivais no exterior, testando forças também ante as divisas europeias, como o euro e a libra, o que traz um viés favorável ao real brasileiro. Frente à cesta de moedas apontadas pelo Dollar Index, a moeda norte-americana caminha para o pior mês desde abril, com os investidores postergando as apostas em relação à próxima alta do Federal Reserve - agora para abril de 2016 - e com um ritmo ainda suave, de +0,25 ponto porcentual. Com isso, as commodities se recuperam, com o petróleo saindo das mínimas em anos, tanto em Londres quanto em Nova York.

 

O sinal positivo vindo da Ásia anima o Ocidente, o que garante uma abertura em alta das principais bolsas europeias, e sustenta os índices futuros em Wall Street no azul. As bolsas de Nova York, porém, estão no aguardo da terceira e última leitura do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no trimestre passado, que será divulgada às 11h30. A previsão é de que a maior economia do mundo siga pujante, com expansão de 2,1% na taxa anualizada até o período.

 

Ainda na agenda econômica norte-americana, saem dados sobre os preços e vendas de imóveis no país (12h e 13h), além do índice regional de atividade na Filadélfia (13h). No Brasil, as atenções se voltam para a nota do Banco Central sobre operações de crédito (10h30), mas o dia começa com o índice de custos na construção civil (INCC-M), às 8 horas. Também são esperados para hoje o relatório mensal da dívida pública mobiliária federal em novembro e os números semanais da balança comercial, seguidos de entrevista coletiva para falar sobre a evolução do comércio exterior do país.

 

No Congresso, deve ser votado hoje o recurso apresentado pelo deputado Carlos Marun, da "tropa de choque" do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, contra a decisão do Conselho de Ética, que aprovou o parecer preliminar do relator que dá prosseguimento às investigações contra Cunha, podendo culminar na cassação do mandato dele. A reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) foi marcada para as 14h30 e tem como primeiro item da pauta a apreciação do recurso, que pode beneficiar o presidente da Casa.

 

Entre os eventos de relevo, a presidente Dilma Rousseff participa de inaugurações de obras na Bahia durante todo o dia, ao passo que Barbosa transmite o cargo de ministro do Planejamento a Valdir Simão, às 9h30. O novo ministro da Fazenda já promoveu mudanças na equipe e nomeou Dyogo Oliveira como secretário-executivo da Pasta, vindo de igual posto no Planejamento. Manuel Pires assume o comando da Secretaria de Política Econômica, enquanto Jorge Rachid segue à frente da Receita Federal.

 

 

  

 

 

 

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