Brasil, de crise em crise

03.12.2015

 

A abertura do processo de impeachment contra o mandato da presidente Dilma Rousseff deve manter a economia paralisada por mais algum tempo e é sob essa perspectiva que os mercados no Brasil abrem hoje, em dia de eventos e indicadores econômicos de peso, aqui e lá fora. Os investidores devem precificar essa piora na política e a previsão é de temperatura elevada em Brasília nos próximos meses, apesar da aprovação de um rombo de quase R$ 120 bilhões nas contas públicas neste ano.

 

Atento a essa pressão nos ativos domésticos, principalmente no dólar, o Banco Central anunciou leilões no mercado de câmbio hoje, para aliviar o peso sobre o real. A moeda norte-americana ganha terreno ante os rivais no exterior, à medida que o Federal Reserve aperta e o Banco Central Europeu (BCE) afrouxa, deixando o mercado internacional irracional. Aliás, a decisão de juros na zona do euro sai hoje, elevando a volatilidade do dia.

 

Afinal, o anúncio do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi feito no fim da tarde, por volta das 18h30, com os negócios locais já fechados. Irritado com a posição do PT, que decidiu votar contra ele no Conselho de Ética da Casa - cuja sessão foi adiada pela quarta vez , Cunha retaliou e decidiu aceitar o pedido feito pelos juristas Hélio Bicudo - para quem o deputado não fez mais que a obrigação - e Miguel Reale Júnior.

 

Só que até o rito estabelecido para o andamento do processo contra Dilma está em discussão. Para o Supremo Tribunal Federal (STF), Cunha não tem o poder de decidir, por exemplo, como será composta a comissão especial. Cabe a ele, dar apenas um parecer técnico sobre o pedido. Já no regimento interno dos deputados, a tramitação do processo é bem rápida, dando um prazo de até 10 sessões para a presidente se defender.  

 

De qualquer forma, hoje, deve ser lido o pedido de impeachment no Plenário da Casa, mantendo o clima tenso na capital federal. Mas o PT pretende recorrer ao STF contra a abertura do processo e também protelar a instalação da comissão, questionando o conteúdo do pedido dos juristas ou mesmo convencendo a base aliada a não indicar representantes.

 

O fato é que a vitória do governo, ontem, no Congresso, com a revisão da meta fiscal de 2015 ficou em segundo plano. O retrato que os mercados têm agora é de um país com uma economia em queda livre e cujas turbulências políticas tendem a agravar o cenário - deteriorando índices de emprego, consumo, atividade, investimentos e arrecadação, e gerando consequências ainda mais graves, já que nem as agências de rating viam o impeachment como um cenário-base.

 

Sem trégua no cenário político, o calendário doméstico também voltou a ganhar peso hoje. Os destaques ficam com a ata da última reunião de política monetária do ano do Banco Central, às 8h30, seguida dos números da indústria em outubro (9h), que deve mostrar a quinta queda consecutiva.

 

No documento do Comitê de Política Monetária (Copom), os investidores esperam encontrar pistas sobre os próximos passos na condução do juro básico, após as mudanças no comunicado que se seguiu à manutenção da Selic em 14,25% e o dissenso no placar conferirem um tom mais duro (“hawkish”) ao BC. Na curva a termo de juros futuros, o mercado já precifica uma taxa ao menos 2 pontos mais alta em 2016.

 

Enquanto digerem a ata do Copom, os investidores recebem novos números ruins sobre a produção industrial brasileira - o que tende a reforçar um BC de mãos atadas frente ao cenário de inflação alta e atividade fraca. A previsão é de queda de 0,3% em outubro ante setembro, no sétimo resultado negativo desde o início do ano, com recuo de 10,6% no confronto anual – na vigésima taxa negativa consecutiva nessa comparação.

 

No exterior, a quinta-feira também está carregada, mas os anúncios de peso começam no fim da manhã. Às 10h45, sai a decisão sobre os juros na zona do euro e a expectativa é de que o BCE lance mão de instrumentos para intensificar a recuperação econômica da região. Às 11h30, o comandante da instituição, Mario Draghi, concede entrevista e deve explicar os motivos e prognósticos na adoção de mais estímulos.

 

Neste mesmo horário, nos Estados Unidos, saem os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país. Depois, às 12h45, será conhecida a leitura final do índice dos gerentes de compras (PMI) do setor de serviços no país. Na sequência, às 13 horas, é a vez do índice ISM sobre o mesmo setor, além das encomendas às fábricas em outubro.

 

À tarde, o foco dos negócios se desloca para o Senado dos EUA, onde a presidente do Fed, Janet Yellen, fará um novo depoimento sobre as perspectivas econômicas do país, a partir das 13h. Ontem, ela frisou que o ritmo de aperto nos juros norte-americanos será gradual, após a primeira alta nos Fed Funds desde 2006 – provavelmente em dezembro.

 

Segundo ela, mesmo depois que os dois mandatos do Fed forem atingidos - pleno emprego e inflação em 2% - a taxa de juros dos EUA deve permanecer abaixo do “normal” no longo prazo para garantir que a economia continue crescendo de maneira sólida, evitando choques. Vale destacar também o pronunciamento do vice-presidente do Fed, Stanley Fischer, hoje, durante conferência da distrital de Cleveland.

 

À espera dessas divulgações, os índices futuros das bolsas de Nova York estão na linha d'água, porém, com um viés positivo, em uma tentativa de recuperação das perdas de ontem. Na Europa, as principais bolsas estão na retaguarda antes do BCE, ao passo que na Ásia, os mercados foram penalizados pelas quedas em Wall Street e do petróleo.

 

Porém, a commodity se recupera nesta manhã, mas o cobre recua. A exceção nos mercados asiáticos ficou novamente com Xangai, que subiu 1,4%, na quarta alta consecutiva, em meio às especulações de que Pequim deve agir em breve para impulsionar o crescimento econômico. Tóquio ficou de lado, com +0,01%.

 

Nos mercados emergentes, as ações e moedas caem pelo segundo dia consecutivo, com a Yellen reforçando as expectativas para a primeira alta nos juros dos EUA em quase uma década, com as perdas lideradas pela rupia indonésia. E essa menor disposição por ativos mais arriscados tende a elevar a pressão sobre os negócios no Brasil hoje.

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