Exterior dá estímulo, mas Brasil segue à deriva

23.10.2015

 

Os mercados financeiros ainda se ajustam à mais recente sinalização de injeção extra de estímulo monetário, vinda do Banco Central Europeu (BCE) ontem, ao mesmo tempo que elevam as expectativas pelos encontros do Federal Reserve e do BC do Japão (BoJ), na semana que vem. A aposta de que a alta do juro norte-americano será adiada sustenta o apetite por risco no exterior e tende a manter o alívio na sessão local hoje.

 

Porém, os investidores estão cientes de que os problemas que assolam o Brasil são domésticos. Ainda que, de um modo geral, uma política expansionista por parte dos principais bancos centrais globais deva reduzir a pressão sobre os países emergentes – principalmente os mais vulneráveis – a questão interna (leia-se política) se sobrepõe aos fatores externos.

 

Sem conseguir mudar a direção do navio, a variável-chave para atenuar o prêmio do risco país é a questão fiscal. Mas o governo deve anunciar hoje uma nova revisão na meta do resultado primário deste ano, admitindo, agora, um déficit. Segundo o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, o saldo negativo seria de cerca de R$ 50 bilhões. O valor, contudo, não inclui as “pedaladas” e o governo deve, então, assumir um rombo em torno de R$ 70 bilhões - ou 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB).

 

Com a nova meta fiscal, o governo assume que registrará déficit primário pelo segundo ano consecutivo. Questionado ontem sobre o assunto, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou que a questão da capacidade de o governo se financiar vem de uma adequada equação orçamentária, que começa com o Orçamento de 2016. Segundo ele, é preciso ter um orçamento “robusto” para o Brasil voltar a crescer.

 

Mas essa pauta deve seguir travada no Congresso, que está afinco com a questão do impeachment. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ressaltou que é preciso ter cautela na análise do novo pedido contra o mandato da presidente Dilma Rousseff, pois o processo de destituição implica atuação direta dela em irregularidades. Assim, “o fato de existir a pedalada não significa que tenha havido ato da presidente ao descumprimento da lei”, disse.

 

Cunha lembrou que não há prazo para apresentar a conclusão da análise, o que pode prolongar a estratégia de não discutir temas sobre ajuste fiscal entre os parlamentares. Já no Poder Executivo, Dilma recebeu apoio de prefeitos e governadores para recriar a CPMF - desde que a alíquota seja de 0,38% e partilhada entre União, Estados e municípios.

 

Hoje, ela cumpre agenda oficial no Tocantins, enquanto Levy estará em São Paulo. Já o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, participa dos BCs da América do Sul, no Paraguai.

 

Mas enquanto por aqui as incertezas internas superam as externas, no ambiente internacional o problema é contrário. Ontem, o presidente do BCE, Mario Draghi, fez coro às mais recentes afirmações do Fed, ao mostrar uma preocupação similar com o crescimento econômico global, em especial em relação à China, e praticamente confirmou que o presente de Natal pode chegar mais cedo para os mercados neste ano.

 

Diante da disposição do BCE em fazer o que for preciso para dar apoio à economia europeia, as principais bolsas da região ampliam os ganhos da véspera. O dado de atividade (PMI) na zona do euro lança luz sobre o crescimento na região, com uma expansão em um ritmo mais lento na indústria e no setor de serviços, o que fortalece as chances de atuação de Draghi.

 

O euro recua ante o dólar, rumo ao pior desempenho em um mês desde julho. Mas as moedas de países emergentes e correlacionadas às commodities ganham terreno em relação à divisa dos Estados Unidos, em meio ao ressurgimento do apetite por risco. Destaque para o won sul-coreano, que é beneficiado pela expansão acima do esperado do PIB no trimestre passado, de +2,6% em base anual. O ringgit malaio, a rupia indonésia, o rublo russo e os dólares australiano e neozelandês avançam.

 

Na Ásia, a Bolsa de Xangai subiu 1,28% hoje, acumulando ganhos pela terceira semana consecutivo e caminhando para a primeira performance mensal de valorização em cinco meses. Por lá, contribuíram para o movimento as especulações de que Pequim também se juntará ao grupo de afrouxamento monetário e adotará mais medidas para alavancar a economia antes da 5ª Plenária do Partido Comunista, que começa no próximo dia 26.  

 

Em Hong Kong, a alta foi de 1,34%, liderada pelo setor imobiliário, após um dado chinês mostrar que os preços de casas novas no país subiram pelo quinto mês seguido, em 39 cidades no mês passado, de 35 em agosto, e caíram em 21 localidades, menos que as 25 do mês anterior. Já a Bolsa de Tóquio saltou 2,11%, em meio à expectativa de que a economia japonesa receberá um impulso adicional por parte do BoJ ao final da reunião no próximo dia 30. O iene é negociado no nível mais baixo em um mês.

 

Na agenda de indicadores e eventos econômicos do dia, saem dados preliminares do mês sobre a atividade nos Estados Unidos. Na safra norte-americana de balanços, saem os resultados trimestrais da Procter & Gamble (P&G), Whirlpool e da American Airlines, entre outros.

 

À espera desses números, os índices futuros em Wall Street estendem o rali de ontem, enquanto o juro da T-note de 10 anos segue levemente acima de 2%. A curva dos Fed Funds sinaliza uma precificação de 57% de chance de aperto do juro nos EUA no encontro de março. A possibilidade de aumento da taxa ainda neste ano foi reduzida a 34%, com chance zero de acontecer neste mês.

 

Internamente, tem IPC-S semanal (8h), relatório mensal da dívida pública em setembro (9h30) e nota do setor externo (10h30) também no mês passado, além do balanço da Fibria, antes da abertura do pregão local.

 

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