O dia depois do corte da S&P

10.09.2015

 

A espada da Standard & Poor's (S&P) que pendia bem acima da cabeça do Brasil teve o fio cortado. Com uma decisão que pegou o governo de surpresa, o anúncio de ontem à noite, na véspera de divulgações econômicas importantes, não apenas tirou o selo de grau de investimento do país como também manteve um viés negativo - ou seja, qualquer deslize nas metas fiscais deficitárias neste e no próximo ano podem resultar em novos cortes.

 

É sob esse cenário real de economia sem o investment grade que os mercados domésticos abrem hoje, já recebendo, nos primeiros minutos de negócios, a ata do Copom e a inflação oficial no Brasil em agosto, medida pelo IPCA. O conteúdo dessas divulgações pode influenciar esse novo ambiente para os investidores. Afinal, desde 2008, a classificação do risco soberano atraía recursos estrangeiros ao país - a S&P, aliás, foi a primeira a retirar dos títulos brasileiros o grau especulativo.

 

Mesmo assim, é bom lembrar que os maiores os fundos de pensão no mundo consideram o rating de ao menos duas agências - e a Fitch e a Moody's ainda veem o Brasil como um bom pagador. Apesar de o downgrade ser uma espécie de "crônica de uma morte anunciada", como disse a oposição, a decisão da S&P se tratava de algo inevitável pela equipe econômica.

 

Em nota a agência de classificação de risco afirma que "os desafios políticos do Brasil continuam aumentando" e isso "pesa na capacidade e vontade do governo em apresentar um orçamento para 2016 coerente com a correção política de ajuste fiscal assinalada" neste segundo mandato da presidente Dilma. Para a S&P, a proposta de déficit de R$ 30,5 bilhões em 2016 "reflete esse desacordo".

 

Também em nota, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, reafirmou o compromisso do governo brasileiro "com a consolidação fiscal". O ministro não estava em Brasília no momento do anúncio pela agência, no início da noite. Após participar de uma palestra em um evento fechado à imprensa, do qual ele saiu sem falar com os jornalistas, Levy seguiu em São Paulo.

 

Aos convidados do Movimento Falconi, o ministro disse que "devemos focar em mudanças que aumentem a eficiência do Estado". Ainda na nota comentando a decisão da agência de rating, Levy diz que serão completadas nos próximos meses ações legislativas de caráter estrutural, que visam aumentar exatamente essa eficiência, "previsibilidade e produtividade da economia".

 

Segundo o ministro,  o processo para se garantir a meta original - de superávit primário de 0,7% do PIB em 2016 - será completado nas próximas semanas, "com o envio de propostas na área de gastos e receitas discutidas com o Congresso Nacional". A agenda de Levy para hoje ainda não estava disponível. Por sua vez, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, realiza teleconferência com jornalistas da imprensa internacional, às 11 horas.

 

Já o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, afirmou em entrevista coletiva, na noite de quarta-feira, que a notícia de rebaixamento "pode ser revertida". Ele admitiu que o governo foi "pego de surpresa", mas garantiu que o momento é de "tranquilidade e segurança". Segundo ele, o governo tem "todos os instrumentos" para resolver a crise fiscal.

 

O exterior também tem sua parcela de contribuição nos negócios locais hoje, com o rali dos últimos dois dias nos mercados internacionais chegando ao fim, em meio às renovadas preocupações quanto a um aperto nos juros dos Estados Unidos e sobre a desaceleração da economia da China. A queda de 5,9% nos preços ao produtor (PPI) chinês em agosto, em base anual, a maior desde 2009 e o 42º mês consecutivo de recuo, conduziu as perdas de 1,4% da Bolsa de Xangai.

 

A deflação nas fábricas chinesas está elevando o custo real de empréstimo no setor industrial, ao passo que a inflação ao consumidor no país (CPI) avançou 2,0% no mês passado, na mesma base de comparação, mas a alta dos preços no varejo parece não ter sido suficiente. O sinal negativo se espalhou pela região da Ásia-Pacífico, com as bolsas de Tóquio e de Hong Kong perdendo cerca de 2,5%, cada.

 

Entre as moedas, o dólar neozelandês recua, após um corte nos juros do país pelo BC local (RBNZ), ao passo que o iene reage em baixa às declarações do primeiro-ministro, Shinzo Abe, de que outubro pode ser uma "boa oportunidade" para o BC japonês (BoJ) impulsionar os estímulos. Na Europa, os receios com a China e os EUA interrompem um rali de três dias e exibem perdas moderadas.

 

Agenda. Em meio a todo esse noticiário, a esperada desaceleração da inflação oficial no Brasil em agosto, medida pelo IPCA, pode ser um ingrediente para o dia. Se confirmada a mediana das expectativas, na faixa de 0,2%, o resultado pode representar a leitura mais baixa para o mês desde 2010, com o acumulado em 12 meses desacelerando-se marginalmente, mas seguindo na faixa de 9,5%.

 

Meia hora antes da divulgação a ser feita pelo IBGE (9h), o Banco Central publica a ata da reunião de setembro (8h30), onde deve explicar o porquê interrompeu o ciclo de alta da Selic, estacionando o juro básico em 14,25% ao ano - e quais motivos poderiam levar a autoridade monetária a agir de novo.

 

No documento do encontro que teve decisão unânime, o Copom deve fornecer detalhes adicionais sobre a visão do BC quanto à situação econômica atual e às perspectivas. Ainda que sendo visto com certa defasagem, uma vez que a ata não contempla o novo cenário da S&P, haverá atenção especial a dois parágrafos da ata.

 

Primeiro, o trecho que fala sobre o cenário de referência, devido à valorização do dólar (parágrafo 18 na ata anterior); e, segundo, sobre a política fiscal (parágrafo 24 na ata anterior), devido à revisão da meta fiscal para 2016. Questões sobre o rating soberano e as tensões políticas também podem ser mencionadas, além da real situação da economia chinesa.

 

Os indicadores e eventos econômicos locais ainda estarão sendo digeridos quando os EUA entrarem em cena, às 9h30, para anunciar os pedidos semanais de auxílio-desemprego feitos no país e os preços de importação em agosto. Depois, às 11 horas, é a vez dos estoques no atacado em julho e, às 12 horas, saem os estoques norte-americanos de petróleo bruto e derivados.

 

À espera desses dados e sob o efeito chinês, os índices futuros das bolsas de Nova York têm leve baixa, na contramão do sinal negativo que prevalece na Europa e na Ásia. Desde ontem, Wall Street mostra cautela com a proximidade do desfecho da reunião de setembro do Federal Reserve, daqui a uma semana. A expectativa é de que o Banco Central dos EUA adie a primeira alta dos juros norte-americanos desde 2006 - talvez para dezembro. Mas isso é assunto para a semana que vem.

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