A moeda do povo


Enquanto a presidente Dilma Rousseff fez um apelo, ontem à noite, para que o Senado barre a "pauta-bomba" que chegará da Câmara dos Deputados, a China mostrou sua artilharia a fim de evitar uma desaceleração econômica mais profunda e permitiu a maior desvalorização da sua moeda (renminbi, ou "a moeda do povo" em chinês) em mais de duas décadas. Em reação, as bolsas internacionais recuam, assim como as moedas de países emergentes e os juros dos títulos de países europeus - o que pode ecoar nos mercados domésticos.

O movimento vindo de Pequim percorreu por todos os mercados globais diante da intensificação dos esforços para apoiar os exportadores chineses e impulsionar o papel de formação de preços de mercado na maior economia da Ásia. O Banco Central chinês (PBoC) cortou a taxa de referência diária em 1,9% hoje, provocando a maior queda em um dia do yuan - como o mercado se refere à moeda chinesa, mas que significa qualquer "dinheiro" em mandarim -- desde que a China unificou as taxas de câmbio oficial e de mercado, em janeiro de 1994.

O PBOC chamou a mudança de um ajuste de uma só vez e disse que vai fortalecer a capacidade do mercado para determinar a fixação diária. Segundo o membro do comitê de política monetária chinês do PBoC, Yu Yongding, "a era de apreciação do yuan chegou ao fim", referindo-se ao período em que a moeda foi revalorizada, a partir de julho de 2005.

Ao final da sessão de hoje, o dólar era cotado a 6,23 por yuan. Essa desvalorização atingiu em cheio as moedas da Coreia do Sul, Australia e Cingapura, que caíram mais de 1%, em meio a apostas de que outros países podem procurar taxas de câmbio mais fracas para manter as exportações competitivas. O baht tailandês e o peso filipino caíram às mínimas em anos. As commodities caem em bloco.

Entre as bolsas, o índice Xangai Composto fechou estável, com -0,01%, assim como Hong Kong (-0,09%). Os demais mercados da região Ásia-Pacífico cederam, com destaques para as perdas de 0,42% em Tóquio e para o tombo de 1,4% em Cingapura - que encerrou no menor nível desde março de 2014. A Bolsa de Seul caiu 0,8% e a de Sydney recuou 0,7%.

Na Europa, as ações das empresas exportadoras lideram as perdas das bolsas na região, com a decisão da China de desvalorizar o yuan se sobrepondo ao acordo firmado entre a Grécia e seus credores por um terceiro pacote de resgate ao país mediterrâneo. A Bolsa de Atenas, aliás, descolou-se do sinal negativo que prevalece entre os ativos de risco e subia ao redor de 1,3%, mais cedo, reagindo ao desfecho favorável das medidas que irão assegurar uma nova ajuda financeira.

O euro também se segura firme ante o dólar, tentando registrar ganhos pela quarta sessão seguida, diante da percepção de que o acordo preliminar irá preparar o terreno para a votação no Parlamento grego antes do pagamento devido ao Banco Central Europeu (BCE), no dia 20. O rendimento (yield) dos bônus gregos recuam, em meio à maior demanda por ativos da renda fixa, o que também afeta o yield dos títulos da Alemanha, Reino Unido e Estados Unidos. Em Wall Street, os índices futuros também estão no vermelho.

Esse comportamento dos mercados internacionais, sob forte efeito da atuação chinesa no câmbio, deve afetar também a performance dos negócios no Brasil. Porém, as atenções locais seguem concentradas no noticiário político, que pode ganhar força a partir de hoje, quando a Câmara colocar em votação novas regras de correção dos depósitos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Em jantar com 43 senadores e 21 ministros, a presidente Dilma pediu que o Senado colabore para impedir o aumento dos gastos públicos, atuando como "Casa moderadora" frente à Câmara. Ela se propôs a intensificar o diálogo com a base, ao mesmo tempo que quer evitar entrar em confronto com os deputados. Hoje, a presidente participa de cerimônia de lançamento do programa de investimento em energia elétrica.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, reúne-se às 11 horas com o presidente da Cemig, Mauro Borges e, à tarde, tem encontros na Secretaria de Fazenda de Goiás (14h30) e, depois, na Febraban (15h30).

Já a agenda econômica do dia segue fraca. No Brasil, o calendário começou com a divulgação da primeira prévia do mês do IPC-Fipe, que subiu 0,84%, acelerando-se ante a taxa de 0,43% apurada em igual período do mês passado. Logo mais, às 8 horas, sai a leitura inicial do IGP-M em agosto e, na sequência, é a vez dos números da produção agrícola no país (9h). Na safra de balanços, BB Seguridade e Itaúsa divulgam, antes da abertura do mercado, o resultado do segundo trimestre.

Nos Estados Unidos, às 9h30, saem os custos trabalhistas e a produtividade da mão de obra no trimestre passado. Às 11 horas, é a vez dos estoques no atacado em junho. No fim do dia, a China entra em cena para divulgar, de uma só vez, os números de julho da produção industrial, das vendas no varejo e também dos investimentos em ativos fixos.

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