A prova dos nove

05.05.2015

 

Um velho jargão do mercado financeiro ensina que “Bolsa sobe e dólar cai”. Esse linguajar próprio dos operadores combinado com outra terminologia técnica, de que “contra fluxo não há argumentos”, é capaz de verificar inconsistências no desempenho da Bovespa e da taxa câmbio neste início de maio.

 

Ontem, o Ibovespa encerrou, pela primeira vez no ano, no patamar dos 57 mil pontos, reavendo níveis de meados de outubro do ano passado. Mais que isso, o principal índice acionário à vista superou a forte resistência que havia nos 57,3 mil pontos, abrindo caminho para galgar o próximo objetivo, já na casa dos 60 mil pontos.

 

Enquanto isso, o dólar saltou pouco mais de 2% ante o real, no primeiro pregão do mês, em meio à notícia de que o Banco Central vai reduzir suas operações de swap cambial referentes à rolagem de contratos que vencem em junho.

 

Para além dos fatores técnicos, relacionados a níveis gráficos e contratos futuros de ativos, a movimentação em torno da Bolsa brasileira e da cotação do real endossa a percepção de que os investidores estrangeiros estão aproveitando o momento no mercado doméstico e indo às compras.

 

Apenas no mês de abril, os “gringos” colocaram, até o dia 29, a quantia recorde de quase R$ 8 bilhões em ações. Trata-se do maior volume mensal já registrado na história da Bovespa, superando os aportes externos apurados em maio de 2009 e abril de 2008, na faixa de R$ 6 bilhões mensal, cada. O recorde, até então, era de janeiro de 2012, quando entraram R$ 7,168 bilhões nessa conta.

 

Portanto, mesmo que o dado referente ao dia 30, a ser conhecido nesta terça-feira, aponte para uma retirada de capital estrangeiro nessa data - o que é pouco provável -, o superávit externo acumulado no decorrer de abril tende a seguir na liderança da série histórica.  

 

O fato é que, em meio às apostas sobre o início do processo de aperto monetário nos Estados Unidos, os investidores pesaram na Bolsa e puxaram a cotação do dólar para cima, encostando em R$ 3,40, uma vez que a alta dos juros norte-americanos estava relativamente próxima, afastando o apetite por risco.

 

Porém, o Federal Reserve tem dado poucas pistas sobre o momento exato em que a taxa dos Fed Funds subirá pela primeira vez desde 2006.

 

Assim, a grande posição comprada (aposta na alta) em dólar foi diminuindo, com muitos se sentindo desconfortáveis nas premissas de que a moeda dos EUA subiria com força e mostrando-se mais propensos em tomar risco. Como resultado, o Ibovespa foi subindo degraus na faixa dos 50 mil pontos e a taxa doméstica de câmbio voltou para R$ 2,90 - em menos de 40 dias.

 

Essa correção se dá até porque o diferencial entre o juro praticado no Brasil e no restante do mundo segue atrativo, principalmente aos olhos dos “gringos”, com o país sendo o maior pagador global de juro real. Assim, mesmo com o anúncio de que o BC rolaria parcialmente o estoque de swap cambial, os investidores estrangeiros zeraram posição comprada em dólar, ontem.

 

À luz da regra dos “noves fora”, o ingresso recorde de capital externo em abril somado à perspectiva de Selic ainda maior ao final deste semestre significa que boa parte dos players decidiu, por ora, encerrar as apostas de dólar em ascensão.

 

Com os aportes nas rendas fixa e variável, a estratégia de buscar um ponto de equilíbrio para o câmbio, perto do nível atual, só tende a encontrar dificuldades nos problemas internos, pois, qualquer sinal de alerta vindo de Brasília - sobretudo nesta semana de votação de medidas do ajuste fiscal - pode retomar a trajetória de alta da moeda norte-americana.

 

 

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